A casa dos espíritos, da escritora chilena Isabel Allende, é uma saga familiar marcante, daquelas que quando estamos lendo é impossível abandonar, que nos fazem agradecer pelo enorme número de páginas e com as quais viramos madrugadas lendo.
A história se passa ao longo do século XX e tem como pano de fundo desde o período oligárquico, dos grandes latifúndios, até a ascensão do socialismo e o golpe militar. Aliás, qualquer semelhança com o que aconteceu na história do Chile não é mera coincidência. Isabel é sobrinha de Salvador Allende, presidente de esquerda eleito em 1970 e morto em 11 de setembro de 1973, durante o golpe militar que instaurou a ditadura no país.
A casa dos espíritos, publicado em 1982, traz esse contexto político bem delineado e faz diversas alusões ao que de fato ocorreu naquele lugar, o que torna este um romance bem interessante pelo caráter histórico também e que encontra ressonância na história de outros países da América Latina, não apenas do Chile.
O enredo segue principalmente em torno das mulheres, cujos nomes repetem um mesmo significado: Nívea, Clara, Blanca e Alba. Acredito que eles estejam relacionados a ver com clareza, com pureza de sentimentos e, no caso da personagem Clara, com a clarividência.
São as mulheres os espíritos livres dessa história, com tendências progressistas e sem as amarras sociais do patriarca Esteban Trueba, marido de Clara, pai de Blanca e avô de Alba. Ele é a imagem exata do arauto dos bons costumes e das tradições, do amor à pátria e da suposta honestidade que, no fundo, escondem uma enorme hipocrisia e uma imensa capacidade de opressão e injustiça. Além disso, é um paranoico anticomunista.
O tom de realismo mágico da obra se dá a partir de Clara, que tem poderes sobrenaturais, é capaz de mover objetos e prever acontecimentos, especialmente catástrofes e mortes violentas. Algo que torna esse aspecto místico mais interessante é que não se trata de uma literatura fantástica, simplesmente, mas de uma narrativa que traz o elemento mágico como sendo uma parte da realidade experimentada sobretudo entre nós, latinoamericanos.
“Clara habitava um universo criado para ela, protegida das inclemências da vida, no qual se confundiam a verdade prosaica das coisas materiais e a verdade tumultuada dos sonhos, onde nem sempre funcionavam as leis da física ou da lógica. Clara viveu esse período ocupada com suas fantasias, acompanhada pelos espíritos do ar, da água e da terra (…)”
Por outro lado, às vezes a obra assusta de tão atual, especialmente agora que vivemos tão forte uma suposta “ameaça comunista” e o fantasma da ditadura militar retorna e ganha relevância no centro do poder político. Não que isso seja uma grande surpresa, uma vez que se trata de um aspecto da nossa história recente, mas é surpreendente como os discursos e as opressões se repetem idênticas passadas tantas décadas. Algumas passagens de Esteban Trueba poderiam facilmente corresponder às figuras políticas que temos hoje em nosso país:
“Trueba considerou que era o momento de sair em defesa dos interesses da pátria e do Partido Conservador, uma vez que ninguém melhor do que ele poderia encarnar o político honesto e incorruptível, como ele próprio anunciava (…) Respeitava a lei, a pátria e a tradição, e ninguém poderia acusá-lo de nenhum delito maior do que escapar aos impostos.”
Para quem leu Paula – livro homenagem/biografia que Isabel Allende escreveu para a filha – antes de ler A casa dos espíritos, o tom autobiográfico que essa obra de ficção exala se torna mais evidente, especialmente porque em Paula, Allende escreve algo sobre as mulheres da família, sua excentricidade, espírito progressista e capacidade de clarividência.
Esse é um livro impecável e já se tornou um dos meus favoritos. É daqueles carregados com muitos detalhes históricos e narrativas minuciosas das personagens, notáveis por suas características incrivelmente humanas, perturbadoras e emocionantes, com as quais nós, em nossa fatídica condição humana, logo nos identificamos.
Eu sempre tive o hábito de fazer metas de leitura no início de cada ano. Durante a maior parte do tempo, porém, meus objetivos se resumiam a “ler mais” ou “ler pelo menos um livro por mês”. Hoje eu estabeleço metas mais claras, porque entendo perfeitamente que gostar muito de ler não é suficiente para conseguir manter esse hábito.
Uma das minhas principais questões a esse respeito é que eu não penso tanto em ler uma grande quantidade de livros a qualquer custo. Não é incomum, ao final de um ano, eu ter lido apenas 12, enquanto os meus ávidos amigos leitores da internet tenham lido 50 ou 80.
Eu gosto de ler com qualidade e por isso minhas metas costumam ser de 1 livro por mês e o que vier é lucro. Uma boa leitura, bem degustada, bem lida, para mim é melhor do que 20 medianas, feitas com pressa e sem prazer.
A segunda coisa é que eu procuro estabelecer um tempo diário mínimo para leitura. Ler um pouco diariamente é melhor do que tentar ler muitas páginas de uma vez só, uma vez por semana. É que isso ajuda o cérebro a se adaptar para a atividade, aumentando a capacidade de concentração e tornando a tarefa mais fácil. Isso é especialmente importante em um tempo em que nos desconcentramos tão facilmente devido ao excesso de telas e mundo digital.
Além disso, eu adoro fazer checklist de livros em um caderno. Eu não costumo escrever uma lista prévia de leituras, embora eu esteja pensando fortemente em fazer isso agora mesmo. Sempre fui anotando os livros conforme ia lendo, mas acho que ter uma relação de 12 obras a serem lidas esse ano vai ser uma atividade legal.
Um conselho que eu costumo dar, além de procurar ler com prazer, é não ter medo de abandonar um livro. Eu acredito muito que livros têm hora. Às vezes não é o momento para um determinado tipo de história e não adianta forçar e não sentir prazer, ler por pura obrigação, por meta.
Por outro lado, para quem sempre abandona os livros pela metade, a dica é justamente o contrário: tentar forçar a barra e ler até o fim. Isso ajuda a criar o hábito de terminar livros, ao invés de sempre abandoná-los. É um segredinho do cérebro.
Em tempos normais é difícil mensurar o quanto aquilo que fazemos com nossos filhos impacta no desenvolvimento deles. É notório que o tempo de qualidade juntos, os momentos de leitura, os passeios ao ar livre e as atividades manuais são coisas que contribuem para desenvolver habilidades cognitivas, emocionais e sociais.
No entanto, a criança vai para a escola, se relaciona com outras pessoas e a aquisição de novas habilidades acontece sem que a gente pense em que lugar, com quem e em que medida cada atividade influenciou nesse processo.
Apesar de termos ficado em casa durante os 2 primeiros anos de vida da Aimée, nunca estivemos confinados como estamos nesse isolamento por pandemia, e os mais de 5 meses de quarentena acabaram servindo como um laboratório.
Como eu mostrei em uma outra publicação, nós fizemos muita atividade manual durante esse tempo em casa. De fato, sempre gostamos e estimulamos brincar com tinta, massinha, papel e afins, por serem coisas divertidas, que as crianças amam, e que favorecem a atenção, a concentração, a criatividade, as habilidades motoras e tantas outras coisas que contribuem para o desenvolvimento delas. Nessa quarentena, também tem sido uma forma de aliviar a tensão de todos em casa, além de evitar tempo excessivo na frente das telas.
Justamente pelo hábito em fazer essas atividades, eu fiquei admirada quando vi Aimée criar sozinha uma colagem, uma cena náutica (rs), usando papel, tesoura e cola. Eu vi e registrei o momento em que a minha criança deu um salto no desenvolvimento e isso foi fantástico, algo que talvez em tempos normais eu não tivesse a oportunidade de observar.
Primeiro ela me pediu papel e tesoura para brincar e eu reuni os materiais de sempre: papel branco, papeis coloridos, tesoura, cola, furador… então ela começou a cortar e me disse que faria um barco. Como costuma acontecer com crianças pequenas, primeiro ela cortou um papel azul e depois, vendo a forma que ele tomou, decidiu que faria o mar (não mais o barco).
Com 3 anos de idade as crianças ainda não tem plenamente desenvolvida a capacidade de premeditação. Isso significa, por exemplo, que elas desenham seus rabiscos e, ao observar a forma que tomam, decidem o que é. Ou então dizem que vão desenhar um gato e, terminado o desenho, percebem que se parece um pássaro e decidem que é um pássaro – “esquecendo” que a ideia inicial era desenhar um gato.
Crianças maiores conseguem planejar algo e executar em seguida, enquanto as menores vão elaborando conforme fazem: elas pensam conforme fazem – nem o “pensar” e o “fazer” estão separados, nem o pensar vem antes do fazer!
Esse é o motivo da minha fascinação: depois do momento inicial decidindo que aquela forma era uma onda, Aimée começou a montar toda a colagem baseada numa ideia prévia, cortou mais papeis azuis, até formar todo o mar, e em seguida decidiu que faria um barco e um pirata para completar o cenário.
Por último, ela me impressionou ao escolher o modo como faria as velas do barco. Eu sugeri cortar a ponta de um papel, para fazer um triângulo, acreditando que ela simplesmente o colaria como se fosse uma vela, mas não. Ela me pediu palitos de churrasco, pediu que eu quebrasse uns pedaços e só depois colou no papel. Em seguida dobrou os triângulos no meio, com o palito dentro.
Ela também pediu olhinhos autocolantes e ajuda para fazer o chapéu do pirata. Tudo isso deixou claro para mim a consciência e atenção plena da Aimée na atividade que ela ia desenvolvendo.
A despeito do fato de ser a mãe, me fascinou a capacidade da Aimée em planejar e executar, do início ao fim, algo dessa complexidade, uma paisagem cheia de elementos, usando algumas técnicas mais sofisticadas do que o (não tão) simples cortar e colar papel. Escolher palitos de churrasco para criar uma vela de barco, por exemplo, é uma demonstração de desenvolvimento da flexibilidade cognitiva, a capacidade de transformar uma coisa em outra, de relacionar coisas, de criar.
Também me surpreenderam suas habilidades motoras finas ao cortar com a tesoura e colar coisinhas pequenas, o cuidado com os materiais, a concentração e a criatividade.
E fiquei pensando no quanto todos aqueles dias em que o pai ou eu ficamos fazendo colagens e recortes com papel e rolo de papel higiênico, e criando bichinhos a partir daquilo, tinham contribuído para o desenvolvimento dessas novas habilidades – que são normais para crianças dessa idade, mas não são naturais, ou seja, não vão aparecer por simples maturidade fisiológica; devem ser aprendidas, na medida em que são estimuladas.
Com paciência e dedicação, com tempo junto de qualidade, com respeito e afeto à criança, com muitas brincadeiras e mais leveza no nosso dia a dia, a gente contribui muito para um desenvolvimento saudável dos nossos filhos, mesmo que não dê pra mensurar e observar como num laboratório – e nem precisa.
Como eu tenho estudado neurociência na minha pós-graduação em educação, foi muito legal identificar que processos cognitivos estão envolvidos nesse salto de desenvolvimento da Aimée. Esse vai ser tema de uma próxima publicação na categoria Desenvolvimento infantil aqui no meu blog. Inté lá! 🙂
Há um momento em meio ao caos em que a gente não consegue mais seguir o fluxo do tempo. Os dias nos engolem como um buraco negro, implacável, e quando vemos, já se passou um mês, lá se foram dois meses…
Em tempos de isolamento social a coisa piora. Nem sempre temos razão para saber o dia da semana; que importa se hoje é terça ou quinta? E, surpreendentemente, o tempo que deveria passar lento, pois estamos presas em casa, está voando.
Não sei o que dizer desses dias. Às vezes sinto que naturalizei perfeitamente o ficar em casa, afinal, sempre gostei. Mas também sempre gostei de sair e de encontrar algumas pessoas e também sinto falta disso. Ficar em casa, particularmente, não é algo que me faça surtar, no entanto, o pesar pela situação pandêmica, os absurdos diários vindos da presidência da república, a reclusão necessária que parece não mais ter fim, dada a incompetência generalizada e completa falta de responsabilidade, sensibilidade e empatia do governo e de boa parte da população, deixam a gente ficou confusa, a vida virou uma bagunça.
Nos últimos dois meses eu não escrevi no blog, apesar de ter um compromisso pessoal de escrever pelo menos uma vez por mês. Também não li os blogs que sigo e a bem da verdade, praticamente não liguei o meu computador. Fiquei lendo livros e assistindo série e cuidando da casa e da Aimée. E o tempo voou! Quando eu vi, já era agosto e me bateu um desespero desse tempo passando tão rápido, dessa vida que escorre e a gente quase não vê.
Livros
Emma – Jane Austen
Emma era o último livro de Jane Austen, uma das minhas escritoras favoritas, que eu ainda não tinha lido. Na verdade, eu tentei começar algumas vezes, mas a leitura sempre travava e eu abandonava – algo incomum para a escrita de Jane Austen, que eu acho uma delícia.
Dessa vez eu insisti e consegui engatar na história, e embora Orgulho e Preconceito siga sendo minha obra favorita, Emma também tem os méritos que me fazem gostar tanto dessa escritora.
As protagonistas de Jane Austen têm algumas características em comum: umas são mais perspicazes, outras mais ingênuas, mas todas são muito inteligentes e de bom caráter. Um fato interessante é que elas costumam ser pobres – não paupérrimas a ponto de não terem acesso a uma boa educação, condição de extrema relevância nas mulheres para Jane Austen, mas também não são nada aristocráticas e costumam sofrer os revezes de sua origem social.
Emma, entretanto, é inteligente, mas muito mimada, um tanto maledicente e tola, além de muito rica. Não que ela não tenha um pouco da sensatez e do bom caráter presente nas personagens de Jane Austen, mas é justamente sua origem social e os preconceitos que vêm juntos que dão o tom da história, mais uma que, passados séculos desde que foi escrita, segue sendo tão atual.
Todos os nossos ontens – Natalia Ginzburg
Todos os nossos ontens é uma obra da escritora italiana Natalia Ginzburg. Foi publicada logo após o fim da 2ª Guerra Mundial e do fascismo na Itália e não por acaso: a autora foi membro da resistência antifascista junto com o pai e o marido.
Essa é uma história bem italiana, que mistura o cômico da vida comum com o trágico dos conflitos que pulsaram na Europa em meados do século XX. O livro é a saga de uma família que vai se desintegrando com a ascensão do fascismo e com a guerra, mas que também se reorganiza, buscando nas memórias do passado meios de viver o presente difícil e de reencontrar sua dignidade humana.
Filmes e Séries
Dark – Todas as temporadas [Netflix]
O que a gente realmente fez em junho e julho: assistiu as três temporadas da série alemã Dark, da Netflix.
Não é à toa que Dark causou tanto furor. Fazia tempo que uma série não chamava tanto minha atenção pela originalidade e qualidade do roteiro.
A história se passa numa pequena cidade da Alemanha e tudo começa com o sumiço de um garoto. A série envolve viagens no tempo e teorias da física como os buracos de minhoca, os “multiversos” e a teoria do gato de Schrodinger, além de uma iconografia que faz referência ao ocultismo e às sociedades secretas, com elementos também de religiosidade cristã.
Para quem gosta desses temas e de muito mistério, a história é um prato cheio para especulações sem fim – incluindo as que surgem e não são tão bem resolvidas mesmo com o fim da série.
Aleatoriedades
As origens: de Stonehenge ao mal do brasileiro
E por falar em mistério, outro dia eu assistia ao programa Stonehenge, segredos revelados, que passa no canal NatGeo.
Assim como milhares de pessoas, eu também sou apaixonada pela história dos henges e por arqueologia e o programa acompanha as escavações e especulações a respeito dessas estruturas neolíticas impressionantes.
Obviamente, uma das principais questões de Stonehenge é a origem das pedras, afinal, trata-se de uma estrutura circular de pedras e saber de onde vieram essas pedras é elementar.
Coincidentemente, uma semana após assistir esse programa saiu a notícia de que a origem das pedras foi descoberta. Fantástico! Mas não para o brasileiro médio que comenta nos portais de notícia. Parece que aquilo que se entende por “origem” de um monumento arqueológico deveria se aproximar muito mais de uma ficção do que de história, propriamente.
Nos comentários das reportagens os brasileiros estavam alucinados porque tudo aquilo não passava de um clickbait (publicação feita apenas para gerar visualizações), afinal, não se descobriu a origem das pedras de Stonehenge e sim, bem… apenas a origem das pedras de Stonehenge.
Aparentemente, eles queriam saber uma origem mágica, ocultista, de ficção, algo surpreendente, e não a origem concreta, ou seja, a simples localização.
Parece inconcebível que a descoberta do local de onde seres humanos de 2.500 a.C tiraram as pedras para fazer aquele impressionante henge seja algo importante. Quer dizer, pessoas da era neolítica percorreram longas distâncias carregando pedras pesadíssimas, mas saber de onde elas vieram, exatamente, não é tão interessante quanto conspirar sobre os motivos – mágicos, ocultos, mirabolantes – que levaram essas pessoas a construírem o monumento. Não duvido nada que eles esperassem algo sobre aliens e pedras vindas de outro planeta.
Pode até ser viagem minha, mas para mim isso mostra algo que eu sempre desconfiei, sobre a mentalidade excitável, impressionável e pouquíssimo científica do brasileiro médio, com tendências ao conspiracionismo e que vê coisa oculta e misteriosa em tudo.
Nada me tira da cabeça que, ao menos em parte, a eleição de um governo tão ruim como o de agora tem a ver com isso, com essa tendência não a acreditar simplesmente em tudo que vê (ou que recebe pelo zap), mas a acreditar especialmente num tipo específico de coisa, que é essa coisa oculta, mágica, revelada. Algo bastante explorado nas fake news mirabolantes inventadas pelo gabinete do ódio – invente uma fake news razoável e talvez eles não acreditem.
O Drops é um resumo do meu mês baseado em filmes, livros, séries, qualquer entretenimento que eu consuma ou qualquer outra coisa aleatória que traga algum entusiasmo pra minha vida.
Eu gosto dos Drops porque é como fazer um inventário dos meus dias, mas também por ser um exercício de análise e uma forma de trabalhar minha memória, uma vez que sempre que eu escrevo sobre coisas que eu li, assisti ou que tiveram minha atenção de alguma forma, eu reviso, analiso, reflito e reorganizo ideias. Por isso, mesmo que eu demore a publicar esse texto, não abro mão de escrevê-lo.
Em maio eu não li nenhum livro de ficção e os filmes que assisti continuam seguindo a linha bandidagem, criminalidade e psicopatia do mês anterior. Não sei porque, mas ultimamente sempre quero assistir filmes de ação e suspense. Ah, e eu finalmente assisti Bacurau.
Livros
A formação social da mente [L. S. Vigotski]
Vigotski é um teórico russo muito importante, tanto para a educação quanto para a psicologia. Pode-se dizer que ele foi um dos que inaugurou a neurociência no início do século XX, mesmo sem todos os recursos tecnológicos que se tem hoje. Tanto isso é verdade que muitos neurocientistas tem o cuidado de explicar que a neurociência nas áreas dos estudos sociais e humanos, como a educação e a psicologia, não traz nada de realmente novo, mas contribui para corroborar, com evidências científicas, teorias já bastante antigas.
A grande contribuição dessa obra de Vigotski foi demonstrar como o desenvolvimento do pensamento e da linguagem humana só é possível por ser social. E a grande sacada de Vigotski é que ele conseguiu percorrer o caminho que o aprendizado faz no cérebro graças ao método materialista histórico-dialético. Parece chocante, para muita gente, que o estudo sobre desenvolvimento cognitivo, a priori tão fisiológico, neurológico, se correlacione com a perspectiva marxista, que muitos reduzem à doutrinação esquerdista (risos). Mas se pensarmos bem, lembramos que Engels (o parceiro de Karl Marx) já tinha concebido a ideia de que o trabalho humano e o uso de instrumentos são meios pelos quais o ser humano transforma a natureza, e ao fazê-lo, transforma a si mesmo. Isso é a plasticidade neuronal de que a neurociência fala e que Vigostski antecipou.
Para qualquer pessoa que queira compreender o desenvolvimento humano, essa obra é instigante, muito embora ela possa exigir uma certa iniciação científica, pela profundidade teórica. Ela costuma ser particularmente interessante para quem trabalha com crianças, por conta da descrição dos experimentos e a teorização a respeito do papel do brinquedo, do desenvolvimento do pensamento e da linguagem, incluindo o desenho, a escrita e a alfabetização. No entanto, é importante lembrar que esse não é um livro sobre desenvolvimento infantil, propriamente, mas sim uma teorização sobre a formação social da mente humana, o que, evidentemente, inclui a infância.
Filmes
Calibre [Matt Palmer]
Tudo começa quando dois amigos resolvem sair para caçar em um melancólico vilarejo escocês, fora da temporada de caça – ou seja, o lugar está vazio. Sem querer, eles se envolvem em uma tragédia e como são os únicos forasteiros, sabem que logo serão tratados como principais suspeitos de um crime. Todo o drama, então, gira em torno do que eles precisam fazer para se safar, e a tensão gerada é no estilo Crime e Castigo de Dostoiévski: o sentimento de culpa, a paranoia de estar sendo vigiado e de que todos sabem o que você fez.
Calibre é um filme de suspense, porém morno. Tem o mérito de conseguir criar um ambiente tão frio e de um sombrio tão intenso que a gente começa a ficar triste como o vilarejo em que a história se passa parece ser. Não me empolgou, mas também não chega a ser um filme ruim.
Tese sobre um homicídio [Hernán Golfrid]
Esse filme argentino, estrelado por Ricardo Darín, é um suspense baseado no livro homônimo do autor Diego Paszkowski . A história começa quando um crime hediondo acontece na universidade onde o protagonista, um professor especialista em direito criminal, dava aulas.
Um de seus alunos, que estava em sala quando o crime ocorreu, se torna suspeito para o professor, que fica obcecado pelo contexto do homicídio – uma jovem garçonete do café próximo à universidade é estuprada e morta de maneira violenta. Junto com o corpo, o assassino deixa uma placa com os dizeres “morte a mulheres como ela”.
O jogo entre professor e aluno – entre a desconfiança que se torna paranoia, do mestre, e o ar de desafio, de pequenas pistas e sugestões, do aprendiz – dá a tônica do filme.
A história tem um apelo hollywoodiano, embora seja mais sutil e sofisticada que os clássicos “tela quente”. É um filme bom de assistir, embora também não seja um super filme.
A casa que Jack construiu [Lars Von Trier]
Esse é um filme de Lars Von Trier, e os filmes desse diretor sempre me dão a sensação de assistir a uma exposição de arte em movimento, como se as cenas fossem quadros fugidios que se organizassem para formar um roteiro de cinema. O que eu quero dizer é que o impacto estético, visual, do filme, costuma ser tão ou mais intenso, para mim, do que o roteiro propriamente dito, de texto, da história. Não que os diálogos ou a história não sejam interessantes, mas o impacto estético é algo que não se pode ignorar.
O filme conta a história de Jack, um engenheiro civil que queria mesmo era ser arquiteto. Ele sofre de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e está tentando construir, com as próprias mãos, a casa perfeita. Jack é noiado, frustrado, obcecado por limpeza e, de fato, tem uma mente psicopata.
A história é narrada por ele em um diálogo – com ares filosóficos, mas carregado de deboche e ironia – com uma voz que ele chama de Virgílio (alusão ao poeta romano). Jack conta como orquestrou alguns de seus principais crimes, defendendo que eles são verdadeiras obras de arte, pois são tanto expressão de suas angústias e questões existenciais, quanto uma busca por criar algo maior do que ele mesmo – a transcendência encontrada na criação artística.
Bacurau [Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles]
É difícil falar sobre Bacurau, porque, nesse momento, me parece que falar sobre Bacurau é muito mais do que falar sobre um filme. Por bem ou por mal, por intenção ou não por parte dos diretores, a obra foi apropriada pelo contexto histórico.
Com isso, quase todas as críticas fazem referência ao momento que vivemos agora, como se a obra estivesse à mercê da realidade atual, mesmo sabendo que o filme começou a ser produzido muitos anos atrás. E o problema disso é que, me parece, tanto elogios quanto críticas negativas saem muito mais fervorosos do que deveriam ser.
Kleber Mendonça Filho é diretor de um dos meus filmes brasileiros favoritos [O som ao redor]. E Bacurau foi aquele alvoroço, festival de Cannes e tudo – embora isso não seja mais novidade para ele.
O filme tem três partes que se diferenciam bastante, em contexto, em narrativa, em estética, em qualidade. O primeiro é bastante realista. Poeira, caminhão, um bandido sendo procurado, uma conterrânea que foi embora chegando para um velório em Bacurau… mas aqui e ali algo meio surreal aparece: a droga que as pessoas tomam coletivamente [seria uma alusão ao “soma”, droga tomada pela população em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley?], a tecnologia contrastante com a pobreza local, uma casa muito pobre abarrotada de livros, uma caçamba da prefeitura despejando livros, ao invés de comida, na rua de terra…
A segunda parte sai do realismo brasileiro e entra na estética hollywoodiana, com atores estrangeiros e com aquela aura de cinema americano de ação. Mas o conteúdo é um deboche: ironiza o brasileiro do sul e sudeste, que se acha superior ao nordestino e ironiza o americano, que se acha superior a qualquer um e só considera violência aquilo que é praticado contra seu povo, enquanto ele mesmo pode se dar ao direito de matar por esporte.
A terceira parte, talvez a mais original, reúne os dois contextos anteriores num confronto. O estilo lembra um cangaço moderno, a população de Bacurau resiste, organizada, coesa, justiceira.
O filme tem seus méritos: a crítica social sempre presente, a atuação de Sônia Braga sempre impecável, algumas referências muito boas, como a crítica ao cinema hollywoodiano western, ao patético sniper americano… e a cena que apresenta a temática do museu de Bacurau, para mim uma das melhores sacadas do filme.
Porém, também tem problemas. Um deles é a dificuldade em entender os diálogos, não sei se pelo áudio ou pela dicção e sotaque dos atores. Além disso, pode ser que minha percepção mude com o tempo, mas a primeira impressão que ficou é que falta continuidade, tanto de roteiro quanto de fotografia, que tem muitos altos e baixos. A discrepância pode até ser proposital, mas a sensação que dá é uma história que vai travando e que só se desenrola e consegue fluir bem no final.
Um crítico de cinema que li [Luis Zanin], disse que o filme simboliza o que nos falta: a resistência de uma comunidade que tem seu território ocupado com violência e que não se reduz a ser caça. E nós nos sentimos assim hoje no Brasil. É verdade que nos sentimos assim, e talvez por essa identificação tanta gente amou o filme. Mas, para mim, a intenção da obra é outra coisa. O quê, eu ainda estou descobrindo e, como não quero ser injusta, vou deixar o texto completo para depois.