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Drops de maio: teses

O Drops é um resumo do meu mês baseado em filmes, livros, séries, qualquer entretenimento que eu consuma ou qualquer outra coisa aleatória que traga algum entusiasmo pra minha vida.

Eu gosto dos Drops porque é como fazer um inventário dos meus dias, mas também por ser um exercício de análise e uma forma de trabalhar minha memória, uma vez que sempre que eu escrevo sobre coisas que eu li, assisti ou que tiveram minha atenção de alguma forma, eu reviso, analiso, reflito e reorganizo ideias. Por isso, mesmo que eu demore a publicar esse texto, não abro mão de escrevê-lo.

Em maio eu não li nenhum livro de ficção e os filmes que assisti continuam seguindo a linha bandidagem, criminalidade e psicopatia do mês anterior. Não sei porque, mas ultimamente sempre quero assistir filmes de ação e suspense. Ah, e eu finalmente assisti Bacurau.

Livros

A formação social da mente [L. S. Vigotski]

Vigotski é um teórico russo muito importante, tanto para a educação quanto para a psicologia. Pode-se dizer que ele foi um dos que inaugurou a neurociência no início do século XX, mesmo sem todos os recursos tecnológicos que se tem hoje. Tanto isso é verdade que muitos neurocientistas tem o cuidado de explicar que a neurociência nas áreas dos estudos sociais e humanos, como a educação e a psicologia, não traz nada de realmente novo, mas contribui para corroborar, com evidências científicas, teorias já bastante antigas.

A grande contribuição dessa obra de Vigotski foi demonstrar como o desenvolvimento do pensamento e da linguagem humana só é possível por ser social. E a grande sacada de Vigotski é que ele conseguiu percorrer o caminho que o aprendizado faz no cérebro graças ao método materialista histórico-dialético. Parece chocante, para muita gente, que o estudo sobre desenvolvimento cognitivo, a priori tão fisiológico, neurológico, se correlacione com a perspectiva marxista, que muitos reduzem à doutrinação esquerdista (risos). Mas se pensarmos bem, lembramos que Engels (o parceiro de Karl Marx) já tinha concebido a ideia de que o trabalho humano e o uso de instrumentos são meios pelos quais o ser humano transforma a natureza, e ao fazê-lo, transforma a si mesmo. Isso é a plasticidade neuronal de que a neurociência fala e que Vigostski antecipou.

Para qualquer pessoa que queira compreender o desenvolvimento humano, essa obra é instigante, muito embora ela possa exigir uma certa iniciação científica, pela profundidade teórica. Ela costuma ser particularmente interessante para quem trabalha com crianças, por conta da descrição dos experimentos e a teorização a respeito do papel do brinquedo, do desenvolvimento do pensamento e da linguagem, incluindo o desenho, a escrita e a alfabetização. No entanto, é importante lembrar que esse não é um livro sobre desenvolvimento infantil, propriamente, mas sim uma teorização sobre a formação social da mente humana, o que, evidentemente, inclui a infância.

Filmes

Calibre [Matt Palmer]

Tudo começa quando dois amigos resolvem sair para caçar em um melancólico vilarejo escocês, fora da temporada de caça – ou seja, o lugar está vazio. Sem querer, eles se envolvem em uma tragédia e como são os únicos forasteiros, sabem que logo serão tratados como principais suspeitos de um crime. Todo o drama, então, gira em torno do que eles precisam fazer para se safar, e a tensão gerada é no estilo Crime e Castigo de Dostoiévski: o sentimento de culpa, a paranoia de estar sendo vigiado e de que todos sabem o que você fez.

Calibre é um filme de suspense, porém morno. Tem o mérito de conseguir criar um ambiente tão frio e de um sombrio tão intenso que a gente começa a ficar triste como o vilarejo em que a história se passa parece ser. Não me empolgou, mas também não chega a ser um filme ruim.

Tese sobre um homicídio [Hernán Golfrid]

Esse filme argentino, estrelado por Ricardo Darín, é um suspense baseado no livro homônimo do autor Diego Paszkowski . A história começa quando um crime hediondo acontece na universidade onde o protagonista, um professor especialista em direito criminal, dava aulas.

Um de seus alunos, que estava em sala quando o crime ocorreu, se torna suspeito para o professor, que fica obcecado pelo contexto do homicídio – uma jovem garçonete do café próximo à universidade é estuprada e morta de maneira violenta. Junto com o corpo, o assassino deixa uma placa com os dizeres “morte a mulheres como ela”.

O jogo entre professor e aluno – entre a desconfiança que se torna paranoia, do mestre, e o ar de desafio, de pequenas pistas e sugestões, do aprendiz – dá a tônica do filme.

A história tem um apelo hollywoodiano, embora seja mais sutil e sofisticada que os clássicos “tela quente”. É um filme bom de assistir, embora também não seja um super filme.

A casa que Jack construiu [Lars Von Trier]

Esse é um filme de Lars Von Trier, e os filmes desse diretor sempre me dão a sensação de assistir a uma exposição de arte em movimento, como se as cenas fossem quadros fugidios que se organizassem para formar um roteiro de cinema. O que eu quero dizer é que o impacto estético, visual, do filme, costuma ser tão ou mais intenso, para mim, do que o roteiro propriamente dito, de texto, da história. Não que os diálogos ou a história não sejam interessantes, mas o impacto estético é algo que não se pode ignorar.

O filme conta a história de Jack, um engenheiro civil que queria mesmo era ser arquiteto. Ele sofre de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e está tentando construir, com as próprias mãos, a casa perfeita. Jack é noiado, frustrado, obcecado por limpeza e, de fato, tem uma mente psicopata.

A história é narrada por ele em um diálogo – com ares filosóficos, mas carregado de deboche e ironia – com uma voz que ele chama de Virgílio (alusão ao poeta romano). Jack conta como orquestrou alguns de seus principais crimes, defendendo que eles são verdadeiras obras de arte, pois são tanto expressão de suas angústias e questões existenciais, quanto uma busca por criar algo maior do que ele mesmo – a transcendência encontrada na criação artística.

Bacurau [Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles]

É difícil falar sobre Bacurau, porque, nesse momento, me parece que falar sobre Bacurau é muito mais do que falar sobre um filme. Por bem ou por mal, por intenção ou não por parte dos diretores, a obra foi apropriada pelo contexto histórico.

Com isso, quase todas as críticas fazem referência ao momento que vivemos agora, como se a obra estivesse à mercê da realidade atual, mesmo sabendo que o filme começou a ser produzido muitos anos atrás. E o problema disso é que, me parece, tanto elogios quanto críticas negativas saem muito mais fervorosos do que deveriam ser.

Kleber Mendonça Filho é diretor de um dos meus filmes brasileiros favoritos [O som ao redor]. E Bacurau foi aquele alvoroço, festival de Cannes e tudo – embora isso não seja mais novidade para ele.

O filme tem três partes que se diferenciam bastante, em contexto, em narrativa, em estética, em qualidade. O primeiro é bastante realista. Poeira, caminhão, um bandido sendo procurado, uma conterrânea que foi embora chegando para um velório em Bacurau… mas aqui e ali algo meio surreal aparece: a droga que as pessoas tomam coletivamente [seria uma alusão ao “soma”, droga tomada pela população em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley?], a tecnologia contrastante com a pobreza local, uma casa muito pobre abarrotada de livros, uma caçamba da prefeitura despejando livros, ao invés de comida, na rua de terra…

A segunda parte sai do realismo brasileiro e entra na estética hollywoodiana, com atores estrangeiros e com aquela aura de cinema americano de ação. Mas o conteúdo é um deboche: ironiza o brasileiro do sul e sudeste, que se acha superior ao nordestino e ironiza o americano, que se acha superior a qualquer um e só considera violência aquilo que é praticado contra seu povo, enquanto ele mesmo pode se dar ao direito de matar por esporte.

A terceira parte, talvez a mais original, reúne os dois contextos anteriores num confronto. O estilo lembra um cangaço moderno, a população de Bacurau resiste, organizada, coesa, justiceira.

O filme tem seus méritos: a crítica social sempre presente, a atuação de Sônia Braga sempre impecável, algumas referências muito boas, como a crítica ao cinema hollywoodiano western, ao patético sniper americano… e a cena que apresenta a temática do museu de Bacurau, para mim uma das melhores sacadas do filme.

Porém, também tem problemas. Um deles é a dificuldade em entender os diálogos, não sei se pelo áudio ou pela dicção e sotaque dos atores. Além disso, pode ser que minha percepção mude com o tempo, mas a primeira impressão que ficou é que falta continuidade, tanto de roteiro quanto de fotografia, que tem muitos altos e baixos. A discrepância pode até ser proposital, mas a sensação que dá é uma história que vai travando e que só se desenrola e consegue fluir bem no final.

Um crítico de cinema que li [Luis Zanin], disse que o filme simboliza o que nos falta: a resistência de uma comunidade que tem seu território ocupado com violência e que não se reduz a ser caça. E nós nos sentimos assim hoje no Brasil. É verdade que nos sentimos assim, e talvez por essa identificação tanta gente amou o filme. Mas, para mim, a intenção da obra é outra coisa. O quê, eu ainda estou descobrindo e, como não quero ser injusta, vou deixar o texto completo para depois.

Alexandra

Oi. Meu nome é Alexandra Duarte e eu escrevo aqui.

Sou formada em Ciências Sociais e pós-graduanda em Educação, áreas do conhecimento que eu adoro estudar e discutir. Além disso, fazem parte da minha vida profissional a fotografia e o cinema.

A arte me inspira, mas andar pelo mundo enche minha vida de sentido. Tenho predileção por tudo que envolve culturas e gosto de estar em contato com pessoas e ideias. Estudar, escrever, viajar, fotografar e fazer filmes são maneiras de experimentar isso. Com a maternidade, meu campo de visão se alargou, e criando a Aimée infinitos temas de estudo e áreas de interesse surgiram. Aqui no blog eu escrevo um bocado sobre tudo isso.

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