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Drops de junho/julho: buracos no tempo

dark serie

Há um momento em meio ao caos em que a gente não consegue mais seguir o fluxo do tempo. Os dias nos engolem como um buraco negro, implacável, e quando vemos, já se passou um mês, lá se foram dois meses…

Em tempos de isolamento social a coisa piora. Nem sempre temos razão para saber o dia da semana; que importa se hoje é terça ou quinta? E, surpreendentemente, o tempo que deveria passar lento, pois estamos presas em casa, está voando.

Não sei o que dizer desses dias. Às vezes sinto que naturalizei perfeitamente o ficar em casa, afinal, sempre gostei. Mas também sempre gostei de sair e de encontrar algumas pessoas e também sinto falta disso. Ficar em casa, particularmente, não é algo que me faça surtar, no entanto, o pesar pela situação pandêmica, os absurdos diários vindos da presidência da república, a reclusão necessária que parece não mais ter fim, dada a incompetência generalizada e completa falta de responsabilidade, sensibilidade e empatia do governo e de boa parte da população, deixam a gente ficou confusa, a vida virou uma bagunça.

Nos últimos dois meses eu não escrevi no blog, apesar de ter um compromisso pessoal de escrever pelo menos uma vez por mês. Também não li os blogs que sigo e a bem da verdade, praticamente não liguei o meu computador. Fiquei lendo livros e assistindo série e cuidando da casa e da Aimée. E o tempo voou! Quando eu vi, já era agosto e me bateu um desespero desse tempo passando tão rápido, dessa vida que escorre e a gente quase não vê.

Livros

Emma – Jane Austen

Emma era o último livro de Jane Austen, uma das minhas escritoras favoritas, que eu ainda não tinha lido. Na verdade, eu tentei começar algumas vezes, mas a leitura sempre travava e eu abandonava – algo incomum para a escrita de Jane Austen, que eu acho uma delícia.

Dessa vez eu insisti e consegui engatar na história, e embora Orgulho e Preconceito siga sendo minha obra favorita, Emma também tem os méritos que me fazem gostar tanto dessa escritora.

As protagonistas de Jane Austen têm algumas características em comum: umas são mais perspicazes, outras mais ingênuas, mas todas são muito inteligentes e de bom caráter. Um fato interessante é que elas costumam ser pobres – não paupérrimas a ponto de não terem acesso a uma boa educação, condição de extrema relevância nas mulheres para Jane Austen, mas também não são nada aristocráticas e costumam sofrer os revezes de sua origem social.

Emma, entretanto, é inteligente, mas muito mimada, um tanto maledicente e tola, além de muito rica. Não que ela não tenha um pouco da sensatez e do bom caráter presente nas personagens de Jane Austen, mas é justamente sua origem social e os preconceitos que vêm juntos que dão o tom da história, mais uma que, passados séculos desde que foi escrita, segue sendo tão atual.

Todos os nossos ontens – Natalia Ginzburg

Todos os nossos ontens é uma obra da escritora italiana Natalia Ginzburg. Foi publicada logo após o fim da 2ª Guerra Mundial e do fascismo na Itália e não por acaso: a autora foi membro da resistência antifascista junto com o pai e o marido.

Essa é uma história bem italiana, que mistura o cômico da vida comum com o trágico dos conflitos que pulsaram na Europa em meados do século XX. O livro é a saga de uma família que vai se desintegrando com a ascensão do fascismo e com a guerra, mas que também se reorganiza, buscando nas memórias do passado meios de viver o presente difícil e de reencontrar sua dignidade humana.

Filmes e Séries

Dark – Todas as temporadas [Netflix]

O que a gente realmente fez em junho e julho: assistiu as três temporadas da série alemã Dark, da Netflix.

Não é à toa que Dark causou tanto furor. Fazia tempo que uma série não chamava tanto minha atenção pela originalidade e qualidade do roteiro.

A história se passa numa pequena cidade da Alemanha e tudo começa com o sumiço de um garoto. A série envolve viagens no tempo e teorias da física como os buracos de minhoca, os “multiversos” e a teoria do gato de Schrodinger, além de uma iconografia que faz referência ao ocultismo e às sociedades secretas, com elementos também de religiosidade cristã.

Para quem gosta desses temas e de muito mistério, a história é um prato cheio para especulações sem fim – incluindo as que surgem e não são tão bem resolvidas mesmo com o fim da série.

Aleatoriedades

As origens: de Stonehenge ao mal do brasileiro

E por falar em mistério, outro dia eu assistia ao programa Stonehenge, segredos revelados, que passa no canal NatGeo.

Assim como milhares de pessoas, eu também sou apaixonada pela história dos henges e por arqueologia e o programa acompanha as escavações e especulações a respeito dessas estruturas neolíticas impressionantes.

Obviamente, uma das principais questões de Stonehenge é a origem das pedras, afinal, trata-se de uma estrutura circular de pedras e saber de onde vieram essas pedras é elementar.

Coincidentemente, uma semana após assistir esse programa saiu a notícia de que a origem das pedras foi descoberta. Fantástico! Mas não para o brasileiro médio que comenta nos portais de notícia. Parece que aquilo que se entende por “origem” de um monumento arqueológico deveria se aproximar muito mais de uma ficção do que de história, propriamente.

Nos comentários das reportagens os brasileiros estavam alucinados porque tudo aquilo não passava de um clickbait (publicação feita apenas para gerar visualizações), afinal, não se descobriu a origem das pedras de Stonehenge e sim, bem… apenas a origem das pedras de Stonehenge.

Aparentemente, eles queriam saber uma origem mágica, ocultista, de ficção, algo surpreendente, e não a origem concreta, ou seja, a simples localização.

Parece inconcebível que a descoberta do local de onde seres humanos de 2.500 a.C tiraram as pedras para fazer aquele impressionante henge seja algo importante. Quer dizer, pessoas da era neolítica percorreram longas distâncias carregando pedras pesadíssimas, mas saber de onde elas vieram, exatamente, não é tão interessante quanto conspirar sobre os motivos – mágicos, ocultos, mirabolantes – que levaram essas pessoas a construírem o monumento. Não duvido nada que eles esperassem algo sobre aliens e pedras vindas de outro planeta.

Pode até ser viagem minha, mas para mim isso mostra algo que eu sempre desconfiei, sobre a mentalidade excitável, impressionável e pouquíssimo científica do brasileiro médio, com tendências ao conspiracionismo e que vê coisa oculta e misteriosa em tudo.

Nada me tira da cabeça que, ao menos em parte, a eleição de um governo tão ruim como o de agora tem a ver com isso, com essa tendência não a acreditar simplesmente em tudo que vê (ou que recebe pelo zap), mas a acreditar especialmente num tipo específico de coisa, que é essa coisa oculta, mágica, revelada. Algo bastante explorado nas fake news mirabolantes inventadas pelo gabinete do ódio – invente uma fake news razoável e talvez eles não acreditem.

Alexandra

Oi. Meu nome é Alexandra Duarte e eu escrevo aqui.

Sou formada em Ciências Sociais e pós-graduanda em Educação, áreas do conhecimento que eu adoro estudar e discutir. Além disso, fazem parte da minha vida profissional a fotografia e o cinema.

A arte me inspira, mas andar pelo mundo enche minha vida de sentido. Tenho predileção por tudo que envolve culturas e gosto de estar em contato com pessoas e ideias. Estudar, escrever, viajar, fotografar e fazer filmes são maneiras de experimentar isso. Com a maternidade, meu campo de visão se alargou, e criando a Aimée infinitos temas de estudo e áreas de interesse surgiram. Aqui no blog eu escrevo um bocado sobre tudo isso.

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