Do respeito às coisas desimportantes

crânio de calango

“Mamãe, você viu meu fóssil?”, disse Aimée, me mostrando os restos de um calango que ela encontrou no nosso quintal. Esse pequeno tesouro, provavelmente um presente deixado pelos nossos gatos, virou uma hora de brincadeira, perguntas, curiosidades. Primeiro foi descoberto o crânio, depois as vértebras e por último a pele. Umas coisinhas diminutas e frágeis, quase insignificantes pra gente, mas uma descoberta incrível pra ela.

Eu poderia dizer que Aimée é uma pesquisadora nata, mas eu sei que essa alegria de saber é característica essencial da infância, que a maioria das pessoas perde quando se torna adulta. A não ser que a gente seja um pouco Manuel de Barros: “[…] Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. […] Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios.”

vértebra de calango
fóssil de calango
fóssil de calango

3 anos da Aimée: comemorando aniversário na quarentena

bolo red velvet

Minha Aimée, minha Amora, fez 3 anos dia 23/04! E nós, assim como a maior parte do mundo, estamos confinados em casa, graças ao coronavírus [corona vidas, como diz Aimée].

Aimée passou meses falando sobre a festa de aniversário dela. Seria a primeira que passaríamos junto da família, em Marabá, já que nos outros dois anos nós estávamos em João Pessoa.

Todos estavam animados por isso. Eu já tinha comprado algumas coisinhas de festa e já estava começando a fazer algumas decorações manuais quando veio a pandemia.

Mas, c’est la vie, a gente comemorou mesmo assim.

decoração artesanal para festa em casa

Peguei umas sobras de decoração do aniversário de 2 anos e fiz as letras do varalzinho com o nome dela usando canetas brush pen e uns papeis coloridos antiquíssimos que eu tinha guardados.

O que eu sempre digo é: não é porque é festa em casa, só pras pessoas da casa, que tem que ser de qualquer jeito.

E quem acha que criança não liga pra essas coisas, nunca viu olhinhos miúdos brilhando ao se depararem com decoração de festa, a mais simples que seja. Elas não querem o luxo, simplesmente amam esse ar festivo. Se sentem especiais e amadas e isso é muito importante pra elas. <3

foto com bolo
fotografia infantil delicada

Como não poderíamos nos reunir e todos estavam tristes com isso, o Evandro teve a ideia de fazer uma videoconferência com alguns familiares pra cantar parabéns pra Aimée.

Nem todo mundo conseguiu conectar na hora, mas ela ficou super feliz de ver algumas das pessoas mais queridas comemorando junto.

Ela olhava pra tela e dizia “oi vovós!”, “oi, tia Thábata!”, “eu quero convidar você, vovó!”, “esse bolo tá muito bom, hummmm”. E mostrava o bolo e todos os elementos ao redor.

festa em casa em quarentena
festa em casa
festa em casa em tempo de isolamento social

Nós queríamos abraços reais, mas por enquanto o mais importante é cuidarmos uns dos outros à distância. Uma hora tudo há de passar e nós ainda vamos comemorar muitos aniversários lindos da Memê com toda a família e amigos reunidos!

Vida longa à nossa Mêmis! <3

bolo red velvet

2 anos da Aimée e uma pequena reflexão sobre os “terríveis dois anos”


Aimée fez 2 anos dia 23 de abril de 2019 e o período que antecedeu o aniversário dela foi tenso! Todo mundo em casa adoeceu…

Que o diga o pai, em pleno aniversário da filha (e dia de São Jorge), indo ao médico descobrir uma sinusite grave, que não tinha sido diagnosticada apesar das três idas na emergência do hospital particular no final de semana.

A gente adiou a festinha (que era só a festinha caseira de sempre), mas para não passar a data do aniversário em branco fui com ela até a padaria comprar um bolo de limão (e acabei fazendo essas fotos, que não estavam nos planos e que ficaram tão fofinhas…).


O pai cantou parabéns antes de ir para o médico e ela, toda sorridente, com aquele jeito manhoso de quando recebe chameguinhos, pediu “vamos, mamãe, Patrulha Canina de aniversário!”.

Primeiro nós ficamos pasmos com a associação que ela fez (como assim Aimée sabe o que é presente de aniversário e como assim até já escolheu o que quer?). Mas depois lembramos do nosso comentário quando ela viu o Marshall (o cachorrinho bombeiro da Patrulha Canina) numa loja de brinquedos e ficou abraçada nele um tempão. O pai perguntou se a gente não devia dar de presente de aniversário e na hora eu disse que não sabia. Só que eu jamais ia imaginar que ela se lembraria disso!

O fato é que Aimée está crescendo (passa tão rápido e muda tanto!) e o tempo todo nos surpreende com as coisas que diz. Ela vai acumulando frases e situações e organizando os contextos e usos na cabecinha dela. E aí, num momento oportuno, ela aparece com uma elaboração toda certinha, que impressiona a gente. Aliás, o desenvolvimento infantil é um dos temas mais fascinantes para mim.

Mas há muitos anos escuto que essa idade, tão interessante e tão cheia de descobertas, é o “terrible two” (terríveis dois anos). Honestamente, eu nunca gostei dessa rotulação. Primeiro porque é injusta com a criança, ao estigmatizá-la. Depois, porque impede que a gente entenda as especificidades dessa fase.

Muita coisa muda neurologicamente, emocionalmente e fisicamente na criança que está deixando de ser bebê. E essa transformação é confusa e estressante não só para nós, mas principalmente para elas, que são capazes de aprendizados incríveis em uma velocidade intensa, mas que ainda não conseguem regular plenamente suas emoções.

É por isso que as birras acontecem. Não se trata de manipulação e desafio, mas de um pedido de socorro: é um ser humano que chegou na terra há apenas 2 anos querendo dizer “eu ainda não sei lidar com isso tudo sozinho”. Por isso o acolhimento é tão importante e tem efeitos tão positivos nessas horas – ao contrário das brigas, dos sermões e da raiva, que não só não educam como pioram a tensão.

Seria uma mentira descarada dizer que educar criança pequena é fácil, mas eu acredito muito que informação liberta a gente e que empatia transforma as relações. Ao criar nossos filhos, precisamos de coragem para rever antigos conceitos e repensar nossa forma de lidar com o outro – especialmente quando ele nos “desafia”, mesmo sem querer.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que amor, afeto e acolhimento nunca são demais. Podem até ser demais para um mundo que já não parece merecer, mas jamais serão em excesso para nossas crianças. Na verdade, tudo é mais difícil quando falta compreensão e sobra ódio. Então não é amor, abraço e colo o que estraga as pessoas na infância, pelo contrário: é não saber ouvi-las, respeitá-las e dar-lhes amor quando mais precisam.

Com a chegada dessa idade, que sem dúvida não é simples, mas que eu tenho absoluta certeza de que não deve ser vista com olhos mal acostumados por preconceitos e ideias agressivas, só quero desejar os mais felizes 2 anos birrentos para Memê. E que se for pra ser terrível, que sejamos nós “terríveis” com as bobagens desse mundo.

***

Ps.: Fizemos uma festinha caseira cheia de corações, pra combinar com o nome dela, que em francês significa Amada. Participaram da festa as quatro amiguinhas mais especiais, de idades bem diferentes, mas que fizeram muito parte da rotina e das brincadeiras dela nesses 2 anos de vida: a Luísa, que tem um verdadeiro dom pra lidar com crianças e que leva Aimée pra passear desde que ela era bebezinha; a Raylla, criança cheia de vida e criatividade, que inventa as brincadeiras mais marotas e diverte Aimée até as gargalhadas; a Sophia, que sempre para pra conversar com Aimée e que apesar da idade não tem problema em emprestar os brinquedos dela, até as Barbies mais bonitas; e a Marcela, companheira mais novinha, que Aimée ama mimar, porque ela é bebê. <3

1 ano da Aimée, festa em casa e elefantinhos

Dia 23 de abril Aimée fez um ano e nós comemoramos com uma festa em casa, só para a família e algumas crianças mais próximas.

Eu adoro fazer festinha, reunir pessoas íntimas, pensar um tema, fazer trabalhos manuais, montar mesa. Não passo aniversário em branco nunca e sempre dou um jeito de tornar o evento uma forma de por as minhas mãos para trabalhar criando coisas! Hahaha

Fazer uma festa de elefantinho não foi uma escolha aleatória, elefantinho foi o “tema” do primeiro ano de vida da Aimée. A gente percebeu que ela tinha um monte de coisas do bichinho e isso virou tão a cara dela que todo mundo quis dar elefantinhos de presente.

Uma dica para quem quer criar uma decoração personalizada e não sabe por onde começar é buscar uma ilustração como ponto de partida, assim fica bem mais fácil fazer “personalizados” para uma festa em casa. Com essa ilustração de elefantinho eu precisei acrescentar apenas o nome e a idade da aniversariante – usando o aplicativo Canva –  e com ela fiz os convites e três decorações de mesa.

Fizemos uma festinha bem simples e caseira, mas eu adorei o resultado de tudo. Acho que a combinação de rosa com dourado é muito bonita, iluminada, festiva.

Além disso, não usei tudo no mesmo tom de rosa e acho que isso contribuiu para um resultado que não é monótono.  Já as paredes brancas de casa me ajudaram a não ter trabalho com painel. 😀

Nós decidimos fazer uma festa pequena em casa porque Aimée dorme cedo e poderia ficar estressada com um ambiente tumultuado, num evento mais longo. Na verdade, muita gente acha bobagem fazer festa para bebês porque eles se estressam e, de qualquer forma, eles não vão lembrar de nada no futuro. Mas comemoração não é só de quem faz aniversário, é de quem vive junto e quando se trata do primeiro ano de vida do nosso bebê, que é um período tão intenso e que passa tão rápido, a gente merece mesmo comemorar. Afinal, isso não é nada mais do que a celebração de uma nova vida e de um ano inteirinho do nosso amor.

O fenômeno Baby Brain e nossa natureza sábia

Li apenas um livro em nove meses de gestação e foi com um certo esforço. Eu, tão mental, racional, mente incansável, tive o primeiro sinal de gravidez enquanto lia, ou tentava ler um livro. À vista das páginas, eu nauseava, o cheiro do papel embrulhava o estômago. Enquanto tudo em mim se transformava e a barriga crescia, mal li e mal escrevi.

Como foi difícil para mim ficar longe do meu reduto, meu quarto com meus livros, minha mesa, meus cadernos. Além da náusea com o cheiro do papel e da visão das letras impressas ou na tela do computador, comecei a sentir uma irritação muito grande em ter que pensar, raciocinar, refletir. Nesse período eu fui toda corpo físico, material e instinto.

A gestação é de um imenso e quase invisível esforço. A barriga cresce e toda a engrenagem por trás disso, toda a atividade exigida para formar um novo ser, tão complexo e completo, funciona sem que a gente veja, mas o corpo exige e a gente sente. O enjoo é só um dos sintomas. O que de mais impressionante eu senti, diria até de mais bonito, foi a necessidade de aterrar, de estar presente aqui e agora.

Na gestação e sobretudo no parto, é impossível prescindir das sensações do corpo. E a sabedoria animal, instintiva, física, primitiva, por vezes sufocada numa sociedade em que a tendência é dissociar-se da própria natureza, torna-se primordial. Mas é especialmente quando o bebê nasce que precisamos dessa sabedoria.

A dificuldade em concentrar-se, a “perda” da memória e o fastio intelectual são, segundo a teoria do Baby Brain, respostas evolutivas do cérebro para garantir a sobrevivência do novo serzinho por quem temos total responsabilidade. As pesquisas sugerem que durante o período em que ocorre o fenômeno há um aumento de atividade cerebral nas áreas do cérebro ligadas às habilidades emocionais e uma diminuição na área relacionada às respostas racionais.

Com todos os nossos sentidos voltados para o bebê, nos conectamos mais fácil e rapidamente com ele, tornando-nos mais capazes de reconhecer  os significados das expressões faciais, dos vários tipos de choro e dos movimentos do seu corpinho, de modo a atender correta e prontamente às suas necessidades, diferenciando fome, dor, aconchego.

Compreender e aceitar a nova condição, buscando adaptar o que for necessário na rotina para lidar com lapsos de memória ou mesmo abrindo mão de atividades intelectuais por um tempo, é a melhor forma de lidar com essas mudanças tão importantes quanto temporárias.

Cerca de quinze dias após o parto, senti uma enorme vontade de ler e passei várias das longas horas de amamentação em leitura. E ainda lembro bem da sensação de já conhecer minha bebê quando a vi pela primeira vez e de sentir um vínculo muito forte. Foi a primeira vez em que percebi conscientemente o sábio movimento da natureza.