Bee or not to be

Quando entrou fevereiro, eu achei que ia surtar.

Foi final de semestre para mim e, como sempre depois de algum descanso eu fico otimista demais, achando que sou capaz de tudo, decidi fazer quatro disciplinas no segundo semestre do doutorado, todas bem pesadas. Dei o melhor que tinha para dar, mas sentia vontade de chorar antes, durante e depois de algumas aulas antropologia linguística.

Uma delas era antropologia visual, a mais divertida, a que eu não faltei nenhuma vez e que seria quase um descanso na correria da semana, se não tivessem tantos trabalhinhos e um curta para entregar no final. De verdade, achei que não ia dar conta. Estava sem ideia, cansada, não tinha tempo para nada… mas, como eu odeio desistir das coisas, resolvi pelo menos tentar.

Minha primeira ideia era um fragmento visual sobre o tempo. Pensei em como minha geração fica num limbro entro querer fazer tudo e não querer fazer nada; entre buscar realização profissional e precisar de dinheiro, mas desejar, principalmente, viver uma vida mansa, com o tal “tempo de qualidade”. Por isso, muitos da minha geração nascem e crescem na cidade, mas acabam buscando um retorno ao campo, um êxodo urbano.

Aí eu lembrei do marido da minha prima, uma pessoa jovem, que sonha em morar no mato… e que cria abelhas.

Então, eu pensei em um curta sobre abelhas.

E comecei a vê-las em todo lugar.

Nos grafites dos viadutos do Plano Piloto, dando voltas na minha Pepsi Zero na lanchonete da UnB, no livrinho que Aimée tem, que se chama “Por que precisamos das abelhas?”, em Marx, que estudei antropologias marxistas, que faz uma reflexão sobre o trabalho humano em relação ao das abelhas…

Passei a pesquisar tudo sobre elas: abelhas são indicadores de bem-estar do ecossistema, essenciais para a polinização e portanto, para a sobrevivência das espécies. O urbano monotemático de concreto e o rural cada vez mais tomado pelo monocultivo ameaçam não só a sobrevivência das abelhas, mas a nossa própria existência.

Fomos filmar o trabalho no apiário, que fica numa fazenda com cerrado nativo, cheio de formigões, florzinhas de todas as cores e as abelhas. É uma ilha de biodiversidade, cores e sons, cercada por fazendas de soja, de solo ressequido, tomada pelo som opressivo do vento no meio do nada. No centro da soja, um pequizeiro queimado, espécie nativa que não pode ser derrubada.

Vendo a paixão do apicultor pelo trabalho, a quantidade de conhecimento acumulado sobre as abelhas e a certeza de que se trata de um trabalho de cooperação entre espécies, lembrei do que li no livro fabuloso da antropóloga Anna Tsing, Viver nas ruínas, que fala sobre a relação entre humanos e não-humanos [no caso delas, os cogumelos matsutake], em paisagens pertubadas pelo capitalismo e pela monocultura do agronegócio.

Na ciência da plantation, como diz Tsing, o amor não flui entre o especialista e o objeto, que são separados pela vontade de poder. “Nas plantations do agronegócio, nós coagimos as plantas a crescerem sem a ajuda de outros seres… enfraquecendo-as como galinhas enjauladas e sem bico. Nós mutilamos e simplificamos as plantas cultivadas até que elas não mais saibam como participar em mundos de múltiplas espécies“.

Longe de ser um tratado sobre conservação que ignora a presença humana, o trabalho de Tsing trata da importância da relação multiespécie, em que a perturbação humana não se limita à mutilação do agronegócio, mas é capaz de construir paisagens biodiversas importantes. Para mim, isso tem tudo a ver com o trabalho com as abelhas. Em um mundo em colapso provocado pela ação humana que reduz a natureza e todas as espécies a objetos sem agência, o trabalho entre humanos e não-humanos é a saída para um futuro distópico.

Bee or not to be. Ou contribuímos para a existência das abelhas ou não seremos nada.

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Em fevereiro, terminei de ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva.

Ainda em 2024, fui assistir ao filme no Cine Brasília, depois de pegar uma fila quilométrica para entrar. Cinema de rua cheio para ver filme nacional é demais. Mas depois da sessão, bateu aquele sentimento de que a ditadura militar é um fantasma nos nossos dias. Fora as recentes tentativas de golpe, temos lacunas na história, pessoas desaparecidas, uma descabida anistia aos militares…

Lendo o livro, que é excelente, eu tive essa sensação de horror e desgosto novamente. A violência desmedida com Rubens Paiva, o desaparecimento do seu corpo, saber que isso aconteceu com centenas de pessoas no Brasil, praticamente ontem; e ainda assim, nós não conseguimos resolver esse capítulo da nossa história. É como se tivéssemos um esquecimento seletivo.

Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, lutou para que essa história não fosse esquecida. Até a publicação do livro e, principalmente, até o lançamento do filme, ela ainda não tinha tido o reconhecimento que merecia. Aliás, o livro é sobre ela – e o filme também. Sobre como ela não só foi atrás da justiça para o marido e a família, mas como enxergou isso como algo maior, muito além da história pessoal.

Assim como minha avó, Eunice Paiva teve alzheimer. Assim como minha avó, também viveu grandes sofrimentos e depois perdeu a memória para a doença. Ainda estou aqui não é sobre o pai do Marcelo, mas sobre como o ser humano lida com a dor e com a memória e o que faz com isso.

Parte da luta hoje ainda é pela memória. Pela consciência de que não podemos esquecer. Que devemos lembrar aqueles que foram mortos, desaparecidos, perseguidos, torturados… que foram mulheres, crianças, homens cujas histórias ainda não foram contadas, por medo ou por injustiça. Indígenas, camponeses… para cada grupo marginalizado é adicionada uma camada a mais de violência e esquecimento nos horrores do regime militar.

Ainda estou aqui é um título que reflete a presença de um pai que desapareceu na ditadura, seguindo vivo na história e na luta da própria família, mas também é uma frase que Eunice Paiva costumava dizer quando a tratavam no passado: quem teve contato com pessoas com alzheimer sabe que nosso sentimento é de estar com alguém ausente, que não existe mais. Marcelo afirma que, nessas horas, a mãe costumava dizer: ainda estou aqui.

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O livro que citei, da Anna Lowenhaupt Tsing, Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno.

As fotos são do João Starghelin: Dia de campo – Apicultura https://www.flickr.com/photos/meunomenaoejohn/albums/72177720323931644/with/54334693722/

Como citar o texto: Duarte, Alexandra. 2025. “Bee or not to be”, Publicado em cafepraviajar.com, url: http://www.cafepraviajar.com/bee-or-not-to-be-drops-de-fevereiro/. Acesso em [dd/mm/aaaa].

Les temps sont durs pour les rêveurs

Contra todos que disseram que janeiro teve 54 dias, o meu durou duas semanas. Minha tese é que o tempo passa diferente para quem faz pós-graduação.

Aliás, o tempo, essa coisa que me tortura. Tenho na minha mesa um quadro com uma menina solta no universo, carregando um relógio no lugar da cabeça e cercada de relógios, em vez de planetas. Ele fica ao lado do meu computador, de frente para mim, quando me sento todos os dias para o meu trabalho infinito, como uma espécie de lembrança de como me sinto, mas também do que quero evitar.

Não gosto que minha vida e rotina sejam sempre pressionadas pelos prazos.

No último dia de janeiro, fui dormir pensando que há anos não sei o que é ter férias e descanso de verdade, acordar sem preocupação, sair para passear sem a tensão do dia seguinte, ter algumas horas de prazer sem culpa pelo trabalho a fazer. Às vezes, até sonho com uma vida comum, em que tenho hora para entrar e sair do trabalho e, quando eu saio, ele não vem comigo para casa.

Sonho em estar em casa sem nada para pensar. Sonho em não pensar mais nada. Posso fazer um exercício físico, cozinhar, conversar, assistir TV, ler um livro e dormir. Sem pressa, sem prazos, sem preocupações. Mas eu escolhi, ou fui destinada, a fazer coisas que não tem bordas delimitadas de tempo e espaço, elas se imbricam nas minhas horas, na minha cama, nos meus feriados, nos espaços de descanso, no meu lazer, nas minhas “férias”.

De vez em quando, percebo que mal paro para olhar pela janela, para a bonita paisagem que vejo do meu quarto. Quando olho, tudo parece tão distante, como se as grades da janela fossem um bloqueio não da esquadria, mas da minha vida.

Trabalho às vezes é a coisa mais desumanizante do mundo e eu odeio essa pressa que me faz evitar o agora porque amanhã eu tenho que

Quando chega o final de semana, sonho em ficar em casa e descansar, mas também trabalhar com calma, sem a correria de segunda-a-sexta. Mas final de semana chega e tem aniversário, tem visita de alguém que está na cidade, tem convites e atividades imperdíveis e então me vejo numa mistura de sentimentos entre “toda vez que penso que vou desacelerar no sábado e domingo aparece alguma coisa” e “que vida é essa que tô vivendo que não consigo socializar com qualidade e sem pressa?”.

Les temps sont durs pour les rêveurs, como diz alguém no filme O fabuloso destino de Amélie Poulain. São tempos duros para uma geração de pessoas sonhadoras, que aprendeu a cultivar prazeres peculiares, a desejar mais do que o ordinário da vida, mas que não encontra sentido em ser esmagada pelo trabalho, devorada pelo tempo, pela vaidade, pelo dinheiro.

Mas olha, não estou escrevendo isso apenas como um desabafo típico da TPM, do começo de ano, do final de semestre atrasado pelo greve. Estou escrevendo porque quero lembrar que é preciso dar um jeito, meu amigo [como diria Erasmo Carlos].

É preciso dar um jeito nesse sentimento, aprender alguma coisa com isso. Alguma coisa tem que mudar. Não posso me deixar ser devorada pelo tempo [meu quadro me lembra todos os dias que não posso ter um relógio no lugar da cabeça]. Já aprendi a não ser devorada e paralisada pela preocupação, quando consegui concluir e defender minha dissertação correndo contra o tempo. Agora tenho que aprender a não deixar de viver o sábado porque terça tem aula e daqui a três anos tem tese.

Tenho notado que ter alguns hábitos me ajuda a ter menos ansiedade e viver um dia de cada vez:

  • fazer exercício físico todos os dias [faço em casa mesmo, 15 ou 30 minutos com o aplicativo Queima Diária, ou caminhadas de cerca de 7km]
  • sempre ler boa literatura ou livros não acadêmicos [nem que sejam só 10 páginas antes de dormir]
  • ter tradições familiares para os finais de semana [assistir filme juntos, jogar jogos de tabuleiro, fazer um passeio ao ar livre…]
  • sempre assistir alguma série meio bobinha, daquelas que fazem a gente sentir que a a vida presta, sim!

Falando nisso, em janeiro eu:

  • li Mulherzinhas, de Louisa May Alcott [e comecei a ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva, mas esse vai ficar para os drops de fevereiro]. Mulherzinhas é o tipo de livro que eu preciso ler de vez em quando, pela escrita singela, porém inteligente, e pela aura do mundo antigo, que sempre me anima. Vou tentar publicar uma resenha dele depois.
  • eu e Aimée lemos Diário de Pilar na África, livro da série que amamos, da escritora Flávia Lins e Silva. Todos os livros são ótimos e o da África se tornou o preferido da Aimée. Mas não é uma leitura fácil, já que fala sobre escravidão – Aimée ficou bem impressionada em alguns momentos.
  • de séries, tenho assistido The Office, uma comédia que me mata de rir e de constrangimento, mas também dá aquele “conforto” no coração.
  • esse mês jogamos Scrabble e Cortex. Scrabble é um dos meus preferidos, porque eu amo jogos de palavras. Cortex eu namorei por anos e finalmente me dei de presente no Natal. É rápido, dinâmico, tem que colocar o cérebro pra jogo, é muito divertido.

Falando em colocar o cérebro pra jogo, a memória é algo que gosto de cultivar e é uma das razões pelas quais escrevo, então vou deixar uma memória do final do ano passado, que só não foi melhor porque eu não tive férias de verdade, só um breve recesso – por causa da greve, o semestre começou em novembro e tivemos apenas um recesso das festas de fim de ano. Eu tentei descansar um pouco, mas tinha trabalho para entregar, seminários para apresentar no retorno das aulas e nisso, o tempo passou voando.

De qualquer forma, foi um Natal e Réveillon tão agradável… Meu irmão veio com minha cunhada e meus sobrinhos. Muita criança fazendo bagunça, Aimée dia e noite brincando e brigando com os primos [tudo na mais perfeita ordem] e um sentimento gostoso de estar em casa e em família. As crianças capotaram na véspera de Natal e nem pediram para abrir os presentes que estavam debaixo da árvore. Na manhã seguinte, acordaram todas bem cedo e se reuniram para abri-los. Tomamos café juntos [panetone, rabanada e biscoitos de gengibre decorados] no silêncio natalino de Brasília.

No réveillon, cozinhamos comida árabe e uma torta de limão deliciosa. Jantamos em casa, ouvindo música suave e conversando. Perto de meia-noite, fomos ver a queima de fogos da Esplanada e voltamos para casa na tranquilidade e calmaria que tenho desejado tanto para esse ano.

Do respeito às coisas desimportantes

crânio de calango

“Mamãe, você viu meu fóssil?”, disse Aimée, me mostrando os restos de um calango que ela encontrou no nosso quintal. Esse pequeno tesouro, provavelmente um presente deixado pelos nossos gatos, virou uma hora de brincadeira, perguntas, curiosidades. Primeiro foi descoberto o crânio, depois as vértebras e por último a pele. Umas coisinhas diminutas e frágeis, quase insignificantes pra gente, mas uma descoberta incrível pra ela.

Eu poderia dizer que Aimée é uma pesquisadora nata, mas eu sei que essa alegria de saber é característica essencial da infância, que a maioria das pessoas perde quando se torna adulta. A não ser que a gente seja um pouco Manuel de Barros: “[…] Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. […] Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios.”

vértebra de calango
fóssil de calango
fóssil de calango

Aprender com o caos

pássaro negro no fio - alexandra duarte
Foto que fiz faz tempo e tem um significado muito especial pra mim

Sempre acho o primeiro dia do ano muito amarelo e modorrento. Não sei o que acontece, mas sempre foi assim. Amarelo, modorrento, abafado, entediante, e que piora porque geralmente eu sinto uma dor de cabeça insistente e irritante, talvez pela noite mal dormida, talvez pela bebida, talvez pelo clima de domingo que o dia primeiro tem, mesmo quando cai num sábado.

Esse ano, não. Por alguma razão, o céu estava azul e lindo. O dia tinha cores normais, suaves, pasteis, nada do amarelo-ressaca. Soprava um vento bom, os humores de todos com quem eu estava, e o meu também, eram os melhores, suaves como o dia. Não efusivos, mas tranquilos. A verdade é que fazia muito tempo que eu não sentia uma energia tão boa, de férias, embora as minhas estivessem acabando ali, de viagem na estrada, embora eu estivesse em casa.

Se essa tranquilidade é prenúncio de um novo ano bom, eu não sei, mas depois de tudo que vivemos desde 2020, nada mais justo que uma forra. Embora eu não possa dizer que 2021 foi um ano ruim pra mim. Foi cansativo, exaustivo, corrido, porém, ruim, não. Eu me mantive viva em mais um ano de pandemia, eu me mantive relativamente firme e sóbria vendo tanta coisa acontecer, sentindo tanto por tudo, trancada em casa com uma criança de 4 anos, atrasando trabalhos por conta da segunda onda, abandonando semestre de faculdade, esgotada, exaurida, querendo que tudo acabasse logo. Mas não foi um ano ruim.

Em dezembro, já não aguentava mais nada. Tirei um mês de férias e trabalhei na primeira semana toda, porque sou o Julius e tenho dois empregos (na verdade eu tenho um emprego normal e além disso faço documentário, então é diferente, mas dá na mesma). De julho a dezembro, não li nenhum livro, não estudei, só trabalhei. Não li notícias, não escrevi textos de política, não tretei com bolsominions. Não conseguia, não tinha ânimo, estava muito, muito cansada. Só queria ficar quietinha no meu canto. Bem quietinha e recolhida.

Estava esgotada, mas trabalhei em coisas que tem significado pra mim. Vivi uma vida inteira em poucos meses. Olhei muito pra dentro de mim mesma, refleti. E fiz muitas coisas, muitas daquelas que me travavam antes, me colocavam medo e ansiedade. Mas fiz. Sem pensar muito, só fiz. Encarei. Não dei ouvidos pras vozes da minha cabeça que colocavam em dúvida meu valor e minha capacidade. E deu certo.

Passei a aceitar com mais tranquilidade situações não tão tranquilas. Acho que amadureci muito, afinal. Desenvolvi mais estabilidade emocional. Passei a ter mais clareza dos meus limites, dos meus medos e do que realmente desejo e preciso. Não sinto mais tanta necessidade de aprovação, validação. Não consigo mais carregar fardos de mágoas e ressentimentos. Eu só sinto vontade de viver bem, de fazer o que gosto e não perder tempo.

Pensei demais sobre a transitoriedade da vida, sobre como é tudo tão fugaz, é tudo muito incerto e a gente tem tão pouco controle sobre as coisas que o meu desejo mais profundo é não perder muito tempo com nada que não me dê sentido e vontade de viver. Curtir um dia de cada vez, sem pressa. Não me perder em vaidades, em necessidades colocadas pelo mundo e não por mim. Viver devagar, porém, viver muito, com intensidade. É um desejo antigo e tenho caminhado mais nessa direção.

Será que tudo isso tem a ver com passar dois anos em pandemia? Será que tanta tensão, afinal, me colocou em perspectiva a respeito dos meus próprios dilemas, problemas, propósitos? Não sei. Sei que não sou do tipo que acha que a pandemia veio ensinar coisas. A pandemia não veio ensinar nada; nós, por outro lado, sempre temos algo a aprender. O que eu sei é que talvez o meu maior aprendizado de 2021 foi expresso totalmente nesse tweet da escritora Liliane Prata:

That’s all, folks!

Ser mãe na pandemia

cacto verde

Pessoas privilegiadas, mesmo sendo privilegiadas, encontram muitas razões para sofrer. Eu me senti assim muitas vezes, alguém com possibilidades, mas sempre sofrendo para fazer escolhas, para aceitar derrotas, aceitar o que não era do jeito que eu queria. E às vezes eu via pessoas com muito menos do que eu, com muitas limitações, e elas pareciam mais bem resolvidas na vida, mais alto astral, como se o fato de não poderem fazer todas as coisas lhes tivesse dado uma habilidade de lidar bem com o que está dado. Está dado, então, o que resta para sofrer menos, é lidar bem com isso.

Quando me tornei mãe, eu compreendi isso bem. A maternidade tem um lado muito bonito e nós adoramos olhar para ele. Difícil é olhar para o outro lado. No entanto, toda mãe quer que enxergem como é difícil ser mãe. E não se trata somente da dificuldade física de lidar com uma criança, do desgaste do corpo. É uma dificuldade existencial.

A maternidade para mim foi principalmente isso, uma dificuldade existencial. Porém, eu não estava muito disposta a sofrer por isso, senão eu sofreria demais. Ao invés disso, eu queria olhar o lado bom das coisas e então eu procurei desenvolver essa habilidade do “está dado”. Está dado, então vamos tentar fazer o melhor, vamos tentar fazer com o que tem.

Pode ser de difícil compreensão para quem não passou pela morte e renascimento da individualidade que é tornar-se mãe, mas é comum puérperas passarem por emoções nebulosas, muitas vezes chamadas de luto mesmo. O que eu acrescentaria é que esse estado de puerpério é maior do que os 45 ou 60 dias que a convenção nos diz durar. Ninguém morre e renasce num período tão curto. Assim como a criança demora para criar independência gradual da figura materna, a mãe também demora a se reconstruir como entidade individual.

Não é exagero o que eu estou dizendo e tenho certeza de que mães entenderão o meu relato. Quando nasce um filho nosso, a gente se apaga um pouco. Todas as demandas estão voltadas para a criança e o nosso corpo também ainda pertencerá a elas por muito tempo. É difícil para nós, também, fazermos essa transição.

Quando uma mãe, em desespero semiconsciente, tenta se desvencilhar dessa condição e se atira no retorno ao trabalho ou gasta horas em salão de beleza, é julgada por quem está próximo: “Não liga pro bebê, prefere ficar bonita, prefere ganhar dinheiro, quer distância, não quer cuidar do próprio filho”.

É claro que existem relações desequilibradas, nós somos uma sociedade de desequilíbrios, é sempre bom lembrar que não existe nada muito bem ajustado. Mas eu diria que uma minoria realmente não se importa com os filhos, uma minoria é realmente negligente e não sente amor nenhum pelo rebento.

A maioria de nós está tentando desesperadamente, às vezes silenciosa e muito discretamente, se agarrar a um fio de nós mesmas. Muitas vezes nos assombram exemplos da infância, de avós ou mães ou tias ou vizinhas ou mães de amigas que viveram a vida dedicada ao papel de mãe-cuidadora.

Desgastaram seus corpos, enrijeceram seus joelhos, seus gestos se tornaram práticos e pouco graciosos. São vultos de nossa memória em que braços matronais passam automáticos, sempre ocupados em levar pratos para a pia, sempre limpando alguma coisa. Passam o dia em casa, encontram as vizinhas à tarde. Raramente saem da rua onde moram. Encontram prazeres nas coisas mais corriqueiras, e mesmo assim, muitas guardam mágoas inconfessas por décadas.

A minha avó passou os últimos anos de lucidez lembrando diariamente as agruras que sofreu por culpa do meu avô e porque teve que criar cinco filhos. Com meu avô morto há mais de uma década, ela ainda acordava de manhã zangada com o passado e jogava os rejeitos da memória em cima da minha mãe, até quando caiu no poço de esquecimento do Alzheimer, em que ela só era capaz de lembrar da própria juventude, do pai e da mãe.

Somos de outra geração, feita para estudar e trabalhar. Recebemos conselhos de não nos casarmos cedo, nem de termos filhos logo e mesmo assim esses exemplos continuam nos assombrando, porque é muito tênue o fio que nos faz cair para fora do jogo. Que nos acomoda dentro da casa, que nos dificulta a retomada profissional, a continuidade dos estudos.

Ser mãe na pandemia é lidar com tudo isso, só que em confinamento, sem escola, sem outras crianças, sem passeios para desanuviar a rotina. É ter que dar conta de tudo que já era difícil e ainda carregar a culpa do excesso de TV e da entrada no mundo dos jogos de celular. É sentir a terrível impotência por não dar conta de tudo. Por não ter energia para brincar, por dormir mais um pouco de manhã enquanto a criança toma café sozinha na sala, assistindo TV.

E quando as mães que precisam trabalhar e estudar e dar conta de todas as outras coisas na pandemia questionaram o porquê de manterem abertos os serviços não essenciais (bares e shoppings) e fecharem os essenciais (escolas!), tiveram que ouvir que “as mães não aguentam os próprios filhos”, “querem se ver livres deles”, “acham que escola é creche”, “acham que professor é babá”, “querem terceirizar a educação dos próprios filhos”.

E, não bastasse isso, a cereja do bolo é que sempre tem aquela mãe perfeita trazendo o pesadíssimo balde de moral e bom senso que só ela tem, para jogar em cima das mães mortais, dizendo que jamais mandaria os filhos para a escola na pandemia, que a família está isolada no sítio com os cachorros, aproveitando esse momento único cuidando da saúde e brincando com os filhos na natureza, porque isso é o certo.

Reconhecendo o quanto ainda sou privilegiada por poder ficar não no maravilhoso sítio-com-cachorros e ar livre à vontade, mas ao menos em segurança no nosso mini apartamento, evitei reclamar e ficar chateada esse ano inteiro sendo mãe-que-trabalha-e-estuda-na-pandemia. Evitei reclamar e procurei ver tudo que tínhamos a agradecer – e temos muito. Fazemos artesanato sempre que o tempo livre permite. Procuro ler historinhas a noite, para não perder o hábito – antes líamos a qualquer hora do dia, agora é muito mais difícil encontrar tempo. E mesmo assim, estamos longe de uma rotina totalmente saudável.

Muitas mães perderam os empregos, afinal, quem fica com as crianças, sem escola, para as mães trabalharem? Algumas terminam se vendo obrigadas a colocar alguém da rede de apoio em risco, que olham as crianças e que acabam tendo contato com as mães que trabalham fora. Mas há outro jeito?

Eu passei o ano inteiro tentando não falar sobre isso, tentando levar a filosofia do “está dado”. Me matriculei nas disciplinas da faculdade sabendo que talvez não desse conta de tudo. Respirei fundo sempre que acumulei mais coisas do que era humanamente possível fazer diante dos prazos, mas que eu precisava fazer. Dormi duas horas por noite por uma semana inteira e em seguida, caí doente.

Para quem tem nos estudos boa parte do sentimento de realização pessoal, ser mãe é sempre muito mais difícil, porque o exercício intelectual não tem hora, não tem fim. E eu sempre penso se vale a pena continuar estudando, estudar, que é parte da minha identidade, que é uma das coisas que me fazem sentir pertencente a mim mesma. E eu me questiono isso. E me questiono se vale a pena continuar trabalhando, mesmo sabendo que detesto depender financeiramente de alguém – e nesse momento, sequer poderia me dar ao luxo. Mas só me pergunto isso porque sou mãe-na-pandemia. Porque sou mãe.