A casa dos espíritos – Isabel Allende

a casa dos espíritos

A casa dos espíritos, da escritora chilena Isabel Allende, é uma saga familiar marcante, daquelas que quando estamos lendo é impossível abandonar, que nos fazem agradecer pelo enorme número de páginas e com as quais viramos madrugadas lendo.

A história se passa ao longo do século XX e tem como pano de fundo desde o período oligárquico, dos grandes latifúndios, até a ascensão do socialismo e o golpe militar. Aliás, qualquer semelhança com o que aconteceu na história do Chile não é mera coincidência. Isabel é sobrinha de Salvador Allende, presidente de esquerda eleito em 1970 e morto em 11 de setembro de 1973, durante o golpe militar que instaurou a ditadura no país.

A casa dos espíritos, publicado em 1982, traz esse contexto político bem delineado e faz diversas alusões ao que de fato ocorreu naquele lugar, o que torna este um romance bem interessante pelo caráter histórico também e que encontra ressonância na história de outros países da América Latina, não apenas do Chile.

O enredo segue principalmente em torno das mulheres, cujos nomes repetem um mesmo significado: Nívea, Clara, Blanca e Alba. Acredito que eles estejam relacionados a ver com clareza, com pureza de sentimentos e, no caso da personagem Clara, com a clarividência.

São as mulheres os espíritos livres dessa história, com tendências progressistas e sem as amarras sociais do patriarca Esteban Trueba, marido de Clara, pai de Blanca e avô de Alba. Ele é a imagem exata do arauto dos bons costumes e das tradições, do amor à pátria e da suposta honestidade que, no fundo, escondem uma enorme hipocrisia e uma imensa capacidade de opressão e injustiça. Além disso, é um paranoico anticomunista.

O tom de realismo mágico da obra se dá a partir de Clara, que tem poderes sobrenaturais, é capaz de mover objetos e prever acontecimentos, especialmente catástrofes e mortes violentas. Algo que torna esse aspecto místico mais interessante é que não se trata de uma literatura fantástica, simplesmente, mas de uma narrativa que traz o elemento mágico como sendo uma parte da realidade experimentada sobretudo entre nós, latinoamericanos.

“Clara habitava um universo criado para ela, protegida das inclemências da vida, no qual se confundiam a verdade prosaica das coisas materiais e a verdade tumultuada dos sonhos, onde nem sempre funcionavam as leis da física ou da lógica. Clara viveu esse período ocupada com suas fantasias, acompanhada pelos espíritos do ar, da água e da terra (…)”

Por outro lado, às vezes a obra assusta de tão atual, especialmente agora que vivemos tão forte uma suposta “ameaça comunista” e o fantasma da ditadura militar retorna e ganha relevância no centro do poder político. Não que isso seja uma grande surpresa, uma vez que se trata de um aspecto da nossa história recente, mas é surpreendente como os discursos e as opressões se repetem idênticas passadas tantas décadas. Algumas passagens de Esteban Trueba poderiam facilmente corresponder às figuras políticas que temos hoje em nosso país:

“Trueba considerou que era o momento de sair em defesa dos interesses da pátria e do Partido Conservador, uma vez que ninguém melhor do que ele poderia encarnar o político honesto e incorruptível, como ele próprio anunciava (…) Respeitava a lei, a pátria e a tradição, e ninguém poderia acusá-lo de nenhum delito maior do que escapar aos impostos.”

Para quem leu Paula – livro homenagem/biografia que Isabel Allende escreveu para a filha – antes de ler A casa dos espíritos, o tom autobiográfico que essa obra de ficção exala se torna mais evidente, especialmente porque em Paula, Allende escreve algo sobre as mulheres da família, sua excentricidade, espírito progressista e capacidade de clarividência.

Esse é um livro impecável e já se tornou um dos meus favoritos. É daqueles carregados com muitos detalhes históricos e narrativas minuciosas das personagens, notáveis por suas características incrivelmente humanas, perturbadoras e emocionantes, com as quais nós, em nossa fatídica condição humana, logo nos identificamos.

A casa dos espíritos Isabel Allende

Metas de leitura para um novo ano

Eu sempre tive o hábito de fazer metas de leitura no início de cada ano. Durante a maior parte do tempo, porém, meus objetivos se resumiam a “ler mais” ou “ler pelo menos um livro por mês”. Hoje eu estabeleço metas mais claras, porque entendo perfeitamente que gostar muito de ler não é suficiente para conseguir manter esse hábito.

Uma das minhas principais questões a esse respeito é que eu não penso tanto em ler uma grande quantidade de livros a qualquer custo. Não é incomum, ao final de um ano, eu ter lido apenas 12, enquanto os meus ávidos amigos leitores da internet tenham lido 50 ou 80.

Eu gosto de ler com qualidade e por isso minhas metas costumam ser de 1 livro por mês e o que vier é lucro. Uma boa leitura, bem degustada, bem lida, para mim é melhor do que 20 medianas, feitas com pressa e sem prazer.

A segunda coisa é que eu procuro estabelecer um tempo diário mínimo para leitura. Ler um pouco diariamente é melhor do que tentar ler muitas páginas de uma vez só, uma vez por semana. É que isso ajuda o cérebro a se adaptar para a atividade, aumentando a capacidade de concentração e tornando a tarefa mais fácil. Isso é especialmente importante em um tempo em que nos desconcentramos tão facilmente devido ao excesso de telas e mundo digital.

Além disso, eu adoro fazer checklist de livros em um caderno. Eu não costumo escrever uma lista prévia de leituras, embora eu esteja pensando fortemente em fazer isso agora mesmo. Sempre fui anotando os livros conforme ia lendo, mas acho que ter uma relação de 12 obras a serem lidas esse ano vai ser uma atividade legal.

Um conselho que eu costumo dar, além de procurar ler com prazer, é não ter medo de abandonar um livro. Eu acredito muito que livros têm hora. Às vezes não é o momento para um determinado tipo de história e não adianta forçar e não sentir prazer, ler por pura obrigação, por meta.

Por outro lado, para quem sempre abandona os livros pela metade, a dica é justamente o contrário: tentar forçar a barra e ler até o fim. Isso ajuda a criar o hábito de terminar livros, ao invés de sempre abandoná-los. É um segredinho do cérebro.

Ler livros é se permitir viver um tempo mais lento

livros vintage sebo

Quando eu era criança, meus dias eram feitos de silêncios e espaços vazios que eu preenchia com leitura. O tempo era lento, comprido, como as longas sombras de um final de tarde.

Com a chegada de todas as responsabilidades da vida que a gente vai construindo, mas sobretudo conforme fomos ficando mais conectados virtualmente, o tempo foi se tornando mais escasso e os espaços, excessivamente preenchidos.

São tantas informações, tantas possibilidades em um rolar de dedos de uma tela… E fora dela, claro.

Talvez sempre tenha sido assim, mas a conexão em rede trouxe um mundo inteiro para mais perto da gente. No entanto, nunca damos conta de acompanhar tudo e parece que estamos apenas boiando na superfície das ideias e dos acontecimentos.

Quando, porém, refletimos sobre o fato de que a vida conectada nos aproxima de uma vastidão de informações, mas nos afasta dos livros, sempre aparece alguém para nos lembrar que com a internet nós estamos, de qualquer forma, lendo mais. E é verdade. A questão é: qual é a qualidade da leitura que fazemos na rede?

Essa qualidade, é preciso deixar claro, não se resume apenas à densidade daquilo que se lê, ou a uma quantidade de páginas lidas num determinado período, mas envolve todo o processo de leitura de uma obra.

O hábito de ler livros impacta nossa vida de diversas formas: por um lado, porque acessamos uma brecha de tempo lento no meio de uma rotina corrida, um tempo que passa sem a gente se dar conta e que promove prazer e tranquilidade, ao invés de ansiedade. Um tempo que parece impossível, anacrônico em relação aos dias que vivemos.

Por outro lado, com um livro podemos entrar em um universo, qualquer que seja, com mais profundidade do que nos possibilita o rolar infinito das páginas da internet, onde pululam as novidades por milésimo de segundo. Nem todos os livros são profundos, é certo. Mas, em geral, conseguimos nos aprofundar mais em qualquer assunto quando fazemos uso deles.

Além disso, os livros têm um impacto nas nossas vidas porque nos fazem desconectar do mundo para nos reconectar com nosso próprio interior e com nossas próprias ideias, algo que a leitura frenética das redes, que também costuma envolver muita interação e contato (comentários, compartilhamentos…), não permite.

Vale dizer que esse ato de se desconectar através dos livros não significa necessariamente uma fuga da realidade, porque, se às vezes entramos em um distante mundo fantástico, noutras seguimos a complexa linha da história e dos movimentos humanos. Portanto, nem sempre lemos para fugir da existência, às vezes é justamente para melhor nos encontrarmos nela.

A sensação de tempo lento e de permanência me parece crucial em um mundo tão ansioso, tão exausto pelos dias corridos, tão fragmentado e carente de coisas duradouras. Nos deixar envolver pelos livros é encontrar a sensação de bem-estar, tranquilidade e contemplação dos dias que nos pertencem, e nos libertar do sentimento de que o mundo nos escapa por girar rápido demais.

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Ps.: acredito que mesmo na internet existem espaços que parecem rasgar a barreira do tempo tão acelerado das redes virtuais. Os blogs têm cumprido essa missão, pois são lugares em que ainda se escreve e se lê de maneira mais lenta, em que ainda se compartilham coisas que duram mais e que permanecem.