Narrativas Visuais: A Feira do Açaí em Belém/PA

Visitar a Feira do Açaí, em Belém, é uma daquelas coisas que só acontecem quando temos a oportunidade de conhecer a cidade com os pés. Quer dizer, de andar pela cidade com interesse genuíno de vivê-la não só em sua expressão turística, mas também em seu cotidiano. É quando a gente encontra as coisas que dão densidade a um lugar, que nos levam ao movimento mais real da cidade e da beleza que existe nas artes do fazer humano, mesmo nas contradições.

O açaí começa a chegar nas primeiras horas da madrugada, vindo das ilhas produtoras ao redor da capital paraense. Centenas de paneiros de açaí, cada um pesando cerca de 13 kg, são retirados dos barcos e negociados na Feira do Açaí, num trabalho que perdura até o início da manhã.

O movimento dos homens é hipnotizante: trabalhadores que estão nos barcos empilham os cestos na cabeça dos que estão na água. Com a maré baixa, os carregadores de açaí levam os paneiros até o cais, onde um terceiro trabalhador se encarrega de pegá-los e enfileirá-los no chão. Os paneiros de açaí são vendidos e por fim levados por outros carregadores até a feira.

Impressiona como os homens, musculosos pelo esforço desse trabalho, conseguem equilibrar vários cestos empilhados na cabeça e nos ombros. E como às vezes jogam paneiros cheios de açaí uns para os outros, sem que as frutinhas caiam no chão.

Esse é um dos trabalhos que não se vê quando se toma açaí, apenas um dentre os vários pontos da cadeia produtiva do fruto que se tornou tão apreciado fora do estado, e até do país, e que tem ficado cada vez mais caro para a população local.

O trabalho de carregador de açaí, ofício que ultrapassa os séculos, é informal e rudimentar, sintoma de uma sociedade em que economia, tecnologia e qualidade de vida e trabalho nem sempre seguem uma ordem concomitante e crescente de “progresso”. Pelo contrário, podem coexistir em níveis distintos, dependendo de onde e para quem acontecem.

A destreza e habilidade desses homens, porém, é no mínimo digna de admiração. E foi com esse sentimento que passei horas observando seus movimentos, enquanto eles diziam, aos risos, que ficariam famosos com essas fotografias.

feira do açai belem
Fotografia: Alexandra Duarte,  (Feira do Açaí, 2013).

Barra do Cunhaú

estrada das falesias

Na nossa primeira viagem ao Rio Grande do Norte visitamos Pipa, a praia de Tibau do Sul e a Lagoa de Guaraíras. Por último, pegamos a Estrada das Falésias para ir até a Barra do Cunhaú, no município de Canguaretama, a 78 km de Natal. 

estrada das falesias

Apesar de ser um atalho para chegar muito mais rápido à Barra do Cunhaú, saindo de Pipa, do que se pegássemos a rodovia, a Estrada das Falésias não é apenas isso: trata-se de uma atração por si só. 

Mesmo que fosse mais longo, a vista impressionante para as praias com mar de verde intenso durante todo o trajeto já faria valer a pena a escolha por esse caminho. No entanto, além da paisagem ainda há mirantes onde é possível observar tartarugas marinhas.

É preciso ter coragem e certa habilidade para encarar essa estrada. Ela é de terra, sofre com a erosão, não tem sinalização e possui riscos especialmente nas áreas com acúmulo de areia. Alguns trechos são muito estreitos entre as falésias e o abismo e algumas subidas, igualmente estreitas, também juntam areia e fazem o carro deslizar. Mas, uma vez que você a enfrenta, a recompensa é garantida.

Para chegar até a Barra do Cunhaú vindo da Estrada das Falésias é preciso fazer a travessia do rio Catu pela balsa manual de Sibaúma. A extensão é curtíssima e a paisagem é linda.

Apesar de ficar muito perto de Pipa, a Barra do Cunhaú é totalmente alheia à efusividade turística vizinha. O lugar tem o ar antigo e nostálgico de vila de pescadores e as praias não lotam de turistas. Para quem gosta de tranquilidade e não se preocupa com a rusticidade – ou até a prefira -, é a escolha perfeita.

Em quase todo o litoral nordestino o sol se põe cedo, então, chegar às 16 horas num lugar pode significar pegar apenas uma réstia de luz. Foi o que nos aconteceu, por isso passamos primeiro um fim de tarde na praia e, como ficamos encantados com o lugar, voltamos para poder aproveitar um dia inteiro lá. 

No nosso dia dedicado à Cunhaú, tivemos sol, chuva e uma comida maravilhosa no restaurante Barraca da Baiana, em frente ao mar. Escolhemos ficar em uma pequena enseada da praia, onde a água entra por cima das pedras conforme a maré vai enchendo e forma uma piscina natural ótima para um banho bem tranquilo. 

barra do cunhau

barra do cunhau

Da Barra do Cunhaú saem barcos que fazem passeios com paradas em outras praias. Da orla vemos uma delas, a Praia da Restinga, de onde é possível ir até a Baía Formosa por uma estrada de terra. Dizem valer muito a pena a visita, mas nós não pudemos fazer essa viagem. 

Por outro lado, tivemos um final de tarde bem gostoso por ali mesmo, conversando com um morador sobre Sibaúma, comunidade quilombola de mais de 400 anos, separada da Barra do Cunhaú pelo rio Catu, onde fizemos a travessia de balsa. 

Ainda ficamos vendo os barquinhos e fomos contagiados pela nostalgia e história da região, cada vez mais certos de que devíamos voltar. Fazendo planos para isso, pegamos a estrada de volta para casa.

barra do cunhau 

 Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você curtiu conhecer um pouco das belezas de Barra do Cunhaú, veja também as duas primeiras partes da nossa viagem ao Rio Grande do Norte:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Pipa

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Praia de Tibau do Sul e Lagoa de Guaraíras

Tibau do Sul e Lagoa de Guaraíras

Depois de passar uns dias no distrito de Pipa, seguimos na direção norte do estado, para Tibau do Sul. Lá, na praia de mesmo nome, a Lagoa de Guaraíras encontra o mar, formando não só uma paisagem linda, mas com uma história bem interessante.

Guaraíras, na verdade, é uma laguna, uma vez que lagoas não têm contato com o mar. Acontece que há registros de que ela já foi mesmo uma lagoa e desde que Tibau começou a ser registrado em mapas, no século XVI, mais de uma vez mudou de forma. Em uma delas, holandeses tinham feito um canal para a passagem de grandes embarcações, que ficou esquecido depois da retomada do lugar pelos portugueses, e foi bloqueado por dunas de areia por quase 300 anos.

A última vez em que Guaraíras se abriu para o oceano foi em 1924, depois de uma cheia terrível que destruiu o povoado de Tibau. Novamente, a ação humana foi determinante. Para drenar a água de canaviais alagados, senhores de engenho começaram, um ano antes da enchente, a abertura de um canal, que não resistiu à força das chuvas e rompeu, dando à lagoa o aspecto que tem hoje. [Veja mais sobre essa história aqui.]

Apesar de aparecer como laguna em trabalhos acadêmicos e sites de viagem estrangeiros, a forma mais comumente usada pela população local é lagoa, por isso é esse o termo que uso aqui.

A principal atração de Tibau do Sul é justamente o passeio de barco na Lagoa de Guaraíras, cujo roteiro inclui parada para ver golfinhos, banho de lama no manguezal e descida em um banco de areia que emerge das águas quando a maré baixa. À propósito, existem horários específicos para fazer essa viagem, por isso nós fomos primeiro para ela, ao invés de ir direto para a praia.

Esse é um passeio relativamente tranquilo de ser feito com bebês, a não ser pelos seguintes motivos : 1) Eles podem sentir medo. Aimée ficou assustada assim que entramos na lancha e grudou em mim durante todo o passeio. 2) Havia coletes salva-vidas, mas nenhum para alguém de 1 ano e 3 meses. 3) Depois de ter sido muito rápido em nos oferecer o passeio, o funcionário da empresa que oferece a programação recuou quando viu Aimée e disse que a Marinha proibia viagens de crianças menores de 2 anos pela costa.

Não encontrei nenhum regulamento ou legislação a respeito disso, mas é óbvio que as empresas têm receio de, em caso de acidente, serem responsabilizadas por carregar passageiros sem equipamento adequado. Porém, ao que parece não existe uma norma de segurança muito apropriada para viagem com os menores em qualquer outro meio de transporte além do carro e mesmo os ultra seguros aviões deixam muito a desejar nesse quesito. [Leia mais sobre isso no texto “Todos estão seguros, menos os bebês”, do pediatra Daniel Becker aqui].

O fato é que pessoas-com-bebês existem e seguem suas vidas (quase) normalmente, locomovendo-se pelo ar, pela terra e pela água, seja por necessidade, seja por diversão. E é claro que elas querem fazer isso sem sentir que estão colocando em risco a vida de suas crias.

Pensar a respeito fez com que eu me sentisse mal no início do passeio, ainda mais com Aimée assustada e agarrada em mim. Pois é… viajar com bebê tem dessas. Mas no fim, tudo correu bem e nós nos divertimos. O trajeto é curto e a descida para o manguezal e a prainha são bem seguras.

A primeira parada é pertinho da praia, para ver golfinhos. Acontece que “ver” aqui pode significar qualquer coisa, inclusive nada. Não dá para ir achando que vai encontrar um espetáculo a la SeaWorld; os bichinhos na natureza não são treinados para divertir a gente.

Portanto, contente-se em parar no meio da lagoa, ficar à espreita e levar um susto ao avistar uma barbatana deslizando sobre a água aqui e ali. Mesmo de longe e mostrando apenas o dorso, dá para ver que eles são maiores do que a gente imagina e apesar do nosso coração infantil esperar por um golfinho acrobata, se for pensar bem, é melhor que eles fiquem só de boa na lagoa mesmo.

A segunda parada é no manguezal. O piloto nos deixa lá contando sobre os benefícios do banho de lama para a saúde. Tudo bem, as pessoas gastam vários reais com cremes faciais, corporais e capilares de lama e argila, mas nenhuma das vantagens que dizem a respeito me animaram a rolar no mangue. Quem sabe no dia em que eu tiver reumatismo… Brincadeiras à parte, as crianças (e os adultos) se divertem e é isso que importa. As fotos também são ótimas, acho até que elas são a principal razão do banho de lama.

É interessante observar que o mangue é um ecossistema de transição: do ambiente aquático para o terrestre e do encontro da água do rio com o mar, portanto de água salgada ou salobra; já uma lagoa possui água doce. Então, quando Guaraíras era de fato uma lagoa, não havia manguezal nem a fauna e a flora características desse ecossistema.

O mangue é rico em biodiversidade e se constitui como berço de diversas espécies. Na verdade, grande parte do alimento proveniente da pesca é produzido no mangue. Além disso, comunidades tradicionais mantém uma relação intrínseca com esse ecossistema. [Veja o filme Mulheres do Mangue, produzido em parceria com nosso coletivo Co.inspiração Amazônica, aqui].

Agora pare e pense que toda a paisagem seria diferente se a Lagoa não fosse uma laguna.

A última parada é num banco de areia da Lagoa. A prainha que se forma é boa para mergulhar e a vista é bem bonita. Nós percebemos que a maré ia subindo bem rápido, por isso é importante chegar cedo para fazer o passeio, senão a visita a essa praia fica comprometida.

Lá tem barraquinhas que vendem comida e bebida e algumas cadeiras e mesas, mas quase nenhuma proteção contra o sol, o que foi bastante inconveniente, porque já era bem tarde. Nós acabamos voltando antes do fim da estadia na prainha (cerca de 40 minutos), mas achamos que foi o suficiente.

Depois da Lagoa de Guaraíras e do almoço, fomos caminhar pela praia de Tibau do Sul, que é muito bonita, com barreira de pedras e formação de piscinas naturais.

A vantagem dessa praia é que não é preciso descer falésias íngremes para chegar até ela. E apesar do ditado que diz que quanto mais difícil é a subida, melhor é a vista, Tibau do Sul, tão fácil de chegar, é sim uma praia que vale a pena ver.

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você gostou de conhecer um pouco sobre Tibau do Sul e a Lagoa de Guaraíras, leia também as outras partes dessa viagem:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Pipa

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Barra do Cunhaú


					

Pipa

O Rio Grande do Norte tem alguns dos lugares mais lindos em que eu já estive.

As praias são maravilhosas, geralmente circundadas por falésias, grandes encostas formadas por camadas sedimentares que tornam a paisagem vista de cima algo de tirar o fôlego.

No município de Tibau do Sul, a 80 km da capital, fica o distrito de Pipa. Na verdade, Pipa é uma praia que recebeu esse nome ainda no século XVI por conta de uma pedra com formato de um tonel, recipiente cilíndrico usado para conservar bebidas como o vinho. Essa pedra, obviamente, ainda está lá e realmente lembra um barril.

Na época da colonização os europeus extraíam da região o pau-brasil e dominaram de tal forma o lugar que seu primeiro nome foi Oratapipy, do tupi “aldeia do homem branco”. Durante séculos a região foi pouco conhecida e explorada pelos brasileiros. Até que por volta de 1970 os surfistas descobriram suas praias e o que então era uma tradicional vila de pescadores, agricultores e artesãos de renda de bilro, cestos de palha e redes de pesca, se tornou um balneário cosmopolita e fervilhante.

Praia do Amor

A Praia do Amor é uma das mais bonitas do estado e a nossa preferida em Pipa. Tem uma bela visão panorâmica na descida para a praia, que é bastante extensa e de areia branca. O mar é agitado e tem ondas grandes, portanto é ótima para quem quer surfar, o que não significa que seja ruim para tomar banho. Quem não quer encarar as ondas pode procurar pelas enseadas da praia, reentrâncias onde a água chega macia, deixando o jorro quebrar lá fora.

Mesmo nos fins de semana, a praia é livre do excesso de gente e da poluição sonora, o que a torna excelente para passeios com bebês e crianças, que podem ficar bem à vontade brincando na areia e na beiradinha do mar.

O único inconveniente é a descida para a praia. Quem anda com bebê sabe que o céu é o limite para o tanto de coisas que a gente carrega. Descer as escadas íngremes das falésias com bebê e infinitos bagulhos não é uma boa ideia. Subi-las, depois de um dia exaustivo de sol e mar, menos ainda. Então o ideal é levar apenas o essencial e deixar a bagulhada baby [piscininha, cadeirinha, etc] para outra ocasião.

Algo que vale muito a pena é caminhar no final da tarde pela Praia do Amor e aproveitar para ver o pôr do sol. Além da paisagem linda, o lugar é cheio de pontos legais para fotografar: arte ao ar livre, tendas que oferecem aulas de surf, enseadas circundadas por pedras, falésias ao fundo, vista panorâmica e vegetação rica.

Praia da Pipa

A Praia da Pipa é menor em extensão de areia, tem ondas medianas e é bem mais movimentada que a Praia do Amor. É a praia central, o que é fácil de entender, afinal o distrito cresceu no entorno dela. Não é das mais tranquilas, o que não significa, porém, que o passeio não valha a pena. Recomendo muito uma ida ao final da tarde, para ver o pôr do sol que é lindo de lá.

Noite em Pipa

Andar por Pipa à noite é muito legal. A vila é toda luzes, cores, cheiros, pessoas e múltiplos idiomas. Mas o melhor para mim é, como sempre, comer. Especialmente se você está com bebê e não restam muitas opções de diversão noturna.

Um dos restaurantes que gostamos muito foi a pizzaria argentina A lo Morón, que serve uma pizza de massa mais grossa e bem simples, mas deliciosa. Nós pedimos os sabores napolitano e calabresa e ambos estavam excelentes. Infelizmente, não provamos as empanadas, outro prato da casa. O ambiente é super agradável, tem uma vista legal e o atendimento é ótimo, as argentinas são muito queridas.

Outro restaurante de argentinos que adoramos foi o De boca em boca, que serve massas artesanais. Os pratos são individuais e muito saborosos. Embora saia um pouco caro para uma família grande jantar, o valor em si é justo, pois se trata de uma massa feita na hora, com molho caseiro e suave. O local é pequenino e aconchegante e o atendimento é bastante gentil e acolhedor, tal qual uma visita na casa de novos amigos.

Nós também temos de lá uma lembrança muito especial; foi a primeira vez que Aimée disse o significado do nome dela em francês: “a amada”. Isso porque ela costuma fazer sucesso onde chega e no meio daquelas perguntas típicas “que idade ela tem?, qual o nome dela?” acabamos descobrindo que Aimée também existe em mapuche e significa “enviada do céu”. Por um acaso, a moça que nos atendeu [se não me engano o nome dela é Ayelén, que significa “sorriso” em mapuche], tem uma melhor amiga chamada Aimée.

Pipa é um lugar maravilhoso, que dá vontade de ficar para sempre. Nós curtimos muito e temos vontade de voltar outras muitas vezes para viver o que não vimos e rever o que já vivemos. 🙂

Nessa viagem, porém, decidimos conhecer outras praias das redondezas. Seguimos para Barra do Cunhaú via Estrada das Falésias, que diga-se de passagem, é uma atração imperdível, e depois para a Praia de Tibau do Sul, onde fizemos um passeio pela Lagoa dos Guaraíras.

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você curtiu conhecer um pouco desse lugar incrível, veja o restante dessa viagem:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Praia de Tibau do Sul Lagoa de Guaraíras 

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Barra do Cunhaú

Goiás Velho em poesia e fotografia

“Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens.”

[Aninha e suas pedras]

Estive em Goiás Velho duas vezes em um mesmo ano e, como costuma acontecer quando estou em cidades históricas, me senti encantada. O colorido das casas, as ruas sinuosas, o horizonte dos morros, as igrejas, a comida das panelas de barro, os doces caseiros, a aura do antigo e do moderno vibrando juntas…

Na primeira vez, por ocasião do carnaval, eu e Evandro curtimos uma festa tranquila nas ruas de pedra. Na segunda, participamos do FICA, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental que acontece anualmente por lá, para apresentar nosso filme [Aquém Margens] e participar de um debate no Fórum Ambiental do evento.

Nas duas vezes curtimos muito andar pelas ruas dessa cidade e um passeio que valeu muito a pena foi visitar a casa de Cora Coralina, que hoje é um museu. Lá fica fácil ver que a história da escritora e da Cidade de Goiás se confundem. Ela dedicou vários de seus poemas à terra onde nasceu, a qual atribui o resultado de toda sua formação. Aliás, ler Cora Coralina e andar pelas ruas de Goiás Velho é uma experiência impressionante, que nos faz sentir mais íntimos de sua poesia.

Fiz as fotografias da cidade do meu modo habitual, enquanto passeava por ela. Sempre ouvimos histórias, paramos para conversar com pessoas, procuramos sentir a atmosfera local, e isso influencia naquilo que adquire mais importância visual para mim. Mas, ainda assim foram fotografias feitas ao acaso, daquilo que eu ia achando bonito pelo caminho.

Só que depois, lendo Cora Coralina e revendo as imagens, percebi o quanto elas conversavam com muitas de suas poesias e a percepção disso me emocionou. A cidade forjou uma escritora, como ela própria disse. E agora é Goiás Velho quem é forjado por ela, ao se dedicar a contar a história de Cora, homenageá-la e perpetuá-la em sua própria história.

“Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.”

[Minha cidade]

***

“Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura,
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”

[Humildade]

***

“Quisera eu ser dona, mandante da verdade inteira e nua,
que nua, consta a sabedoria popular, está ela no fundo de um poço fundo,
e sua irmã mentira foi a que ficou  em cima beradiando.

Quem dera a mim esse poder, desfaçatez, coragem de dizer verdades…
Quem as tem? Só louco varrido que perdeu o controle das conveniências.
Conveniências… palavras assim de convênio, de todos combinados,
força poderosa, recriando a coragem, encabrestando a vontade.
Conveniência… irmã gêmea do preconceito, encangados os dois,
puxando a carroça pesada das meias verdades.
Confissões pela metade…
Quem sou eu para as fazer completas?

Reservas profundas, meus reservatórios secretos, complexos,
fechados, ermos, compromissos íntimos e preconceitos vigentes, arraigados.

Algemas mentais, e tolhida, prisioneira, incapaz de despedaçar a rede
onde se debate o escamado da verdade…
Qual aquele que em juízo são, destemeroso dos medos
para dizer mais do que  as meias dissimuladas, esparsas?

A gente tem medo dos vivos e medo dos mortos.
Medo da gente mesmo.
Nossas covardias retardadas e presentes.
Assim foi, assim será.”

[Confissões partidas]

***

“Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.”

[Das pedras]

***

“Éramos quatro as filhas de minha mãe.
Entre elas ocupei sempre o pior lugar.
Duas me precederam – eram lindas, mimadas.
Devia ser a última, no entanto,
veio outra que ficou sendo a caçula.

[…]

Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam – diziam:
“- Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente.”

[…]

Caía nos degraus.
Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
“- Levanta, moleirona.”

[…]

E a casa me cortava: “ menina inzoneira!”
Companhia indesejável – sempre pronta
a sair com minhas irmãs,
era de ver as arrelias
e as tramas que faziam
para saírem juntas
e me deixarem sozinha,
sempre em casa.

A rua… a rua!…
(Atração lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
– proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
– emparedavam.

[…]

Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.

Contenção… motivação… Comportamento estreito,
limitando, estreitando exuberâncias,
pisando sensibilidades.
A gesta dentro de mim…
Um mundo heroico, sublimado,
superposto, insuspeitado,
misturado à realidade.

E a casa alheada, sem pressentir a gestação,
acrimoniosa repisava:
“- Menina inzoneira!”
O sinapismo do ablativo
queimava.

Intimidada, diminuída. Incompreendida.
Atitudes impostas, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar…
E a certeza de estar sempre errando…
Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.

Daí, no fim da minha vida,
esta cinza que me cobre…
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer,
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.

Eu era triste, nervosa e feia.
Chorona.
Amarela de rosto empalamado,
de pernas moles, caindo à toa.
Um velho tio que assim me via
dizia:
“- Esta filha de minha sobrinha é idiota.
Melhor fora não ter nascido!”

Melhor fora não ter nascido…
Feia, medrosa e triste.
Criada à moda antiga,
– ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei à casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente,
do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas moles, caindo à toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.

Sem carinho de Mãe.
Sem proteção de Pai…
– melhor fora não ter nascido.

E nunca realizei nada na vida.
Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino.”

[Minha infância]

***

“Irmanadas na poesia
Nos encontramos,
Quem vem vindo,
Quem vai indo,
Na roda-viva da vida.
Girando, se esbaldando,
No encalço de uma rima
Fugidia.
Pegar no laço do pensamento
A rima feliz e plantar com amor
Na divisa extrema do verso,
A chamada rima de ouro
Que tem forma de chave de ouro.
E dizer que há poetas consagrados
Que têm delas um chaveiro!
Com os dedos pegamos a luz.
Começou o seu tempo,
Meu tempo se acaba.
O esplendor de uma aurora,
O poente que se apaga.
Fui na vida o que estás agora,
Tu serás o que sou.
Nosso traço de união:
És o passado dos velhos,
Eu, o futuro dos moços.”
[Traço de união]
***

“Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes. O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade. Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.  Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser melhor, pois bondade também se aprende. Mesmo quando tudo parece desabar cabe a mim decidir entre rir e chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida que o mais importante é decidir.” [Cora Coralina]