A câmara sangrenta – Angela Carter

Angela Carter, em 1970

Coisas sangrentas e literatura fantástica não são o meu forte. Não é que eu nunca goste, mas é um gênero cujas obras dificilmente estão entre as minhas primeiras escolhas. Se A Câmara Sangrenta, da escritora inglesa Angela Carter, não viesse numa caixinha da TAG – Experiências Literárias, eu provavelmente não teria tido contato com esse livro tão cedo (valeu, TAG!).

Seus contos remetem a clássicos do folclore universal contados para crianças, como Chapeuzinho Vermelho, A Bela e a Fera e O Barba Azul, porém, com elementos nada infantis. Por conta disso, é comumente apresentada como um conto de fadas para adultos, definição que a própria Angela Carter detestou.

Talvez porque, ao dizer isso, presume-se que ela apenas adicionou o elemento “adulto”, ou seja, o erótico e o sangrento, às histórias da carochinha. Mas a verdade é que este livro não é uma simples releitura desses clássicos e essa percepção esconde a proposta absolutamente original do livro, que apesar de tomar como ponto de partida contos conhecidos por todo mundo, criou histórias que não precisaram recorrer a artifícios mirabolantes para serem autênticas.

A câmara sangrenta foi publicado na década de 1970, quando o debate sobre feminismo e papeis de gênero na sociedade estava em alta. Em parte, isso se reflete no fato de que as personagens principais de Carter são mulheres. Além disso, a maneira como elas foram construídas subverte a tradição do gênero feminino na literatura dos contos de fadas, de modo que suas personagens não aparecem nenhuma vez como representação da suposta fragilidade feminina.

Assim, temos uma Bela que até podia estar sob o domínio da Fera, mas que também tinha seus próprios recursos para virar o jogo. A jovem do conto que dá título ao livro – e que pra mim é a personagem mais bem construída dessa obra – podia até ser vítima do Barba Azul, mas não era incapaz de tomar consciência disso e de agir em favor próprio. Quanto à Chapeuzinho Vermelho, ela sequer aparece como vítima.

Penso que essa narrativa era a metáfora perfeita para a condição da mulher naquela nova – nem primeira, nem última – ruptura com a sociedade patriarcal dos anos 1970: admitir que a opressão masculina existe e que mulheres são frequentemente alvo da violência dos homens, mas sem naturalizar o papel de passividade relegado ao gênero.

Isso traz uma perspectiva que não é romântica e rompe com a ideia da mulher que é tão passiva, tão vítima, que é incapaz de agir, sobretudo quando a ação envolve violência, e de ser realmente protagonista de sua história.

Mas além das questões de gênero, também é marcante na obra a dualidade humana e animal sem fronteiras bem definidas, como se todos fossem tanto uma coisa, quanto outra. De certa forma, isso diminui a estranheza que sentimos em relação ao animalesco das personagens, que se tornam mais humanas, e dá uma pegada realista para essa narrativa fantástica.

Em A câmara sangrenta, somos nós, mulheres e homens, tanto humanas, quanto animais, tanto vítimas, como algozes. E diferente do que pode parecer, dizer isso através desses contos não diminui a competência da autora no debate das opressões de gênero, nem reforça violências. Antes, dá a mulher a dimensão do que ela pode ser: integral, completa, agente de sua vida e não apenas o resultado daquilo que o homem fez dela.

Tudo isso torna esse livro imprescindível e fazem da escrita de Angela Carter fenomenal. Trata-se de uma escritora que nos ganha nas primeiras linhas, seja pela beleza e fluidez da linguagem, seja pelo enredo nada convencional; mas também pela descrição ampla, com a composição do ambiente e das emoções das personagens aparecendo mais do que as situações concretas, propriamente ditas, o que faz dessa uma obra com forte apelo psicológico, sendo este também um de seus maiores méritos.

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

…e algumas considerações sobre ler mulheres

Fui em uma livraria com a intenção de procurar autoras brasileiras contemporâneas. Primeiro porque eu andava lendo muita literatura clássica, minha cabeça estava entre o século XVIII e o XIX, completamente ignorante do tipo de escrita produzida agora. Depois porque eu comecei a me incomodar com uma ideia reproduzida por aí afora de que mulher escreve e publica pouco porque é mais acanhada que o homem, como se isso fosse uma característica que nascesse com a gente. Uma ótima desculpa para esconder o privilégio dos homens e a desigualdade entre gêneros decorrente disso. Eles quase sempre têm mais visibilidade e, principalmente, legitimidade ao falar e escrever. É como se o homem falasse algo universal, de interesse para a humanidade, e a mulher ficasse restrita a assuntos que interessam apenas ao próprio gênero.

Em As mulheres ou os silêncios da história, a historiadora francesa Michelle Perrot escreveu sobre como a mulher ocidental, pelo menos até o início do século XX, teve o espaço público e tudo o que o envolve negado: a rua, a cidade, a política e, consequentemente, a expressão pública da fala, da escrita, das decisões políticas e de tudo que não ficasse restrito ao lar. Incentivadas à discrição e, quando não, obrigadas à reclusão no âmbito privado, algumas mulheres, geralmente de classes privilegiadas, escreveram suas histórias em diários e cartas, interrompendo um pouco do silêncio a elas destinado, deixando um rastro de memória a partir da escrita íntima.

Foi acompanhando o debate em torno da visibilidade da literatura produzida por mulheres que eu me voltei para algo que sempre me incomodou um pouco, mas que nunca havia questionado muito profundamente – e também nunca havia feito nada a respeito. Mulheres escrevem, mas a gente não ouve falar tanto nelas quanto ouve falar dos homens. Dentre os livros considerados clássicos, quantos foram escritos por mulheres? Em uma dessas listas de internet, de cem apenas cinco. São eles que aparecem, que têm mais visibilidade, é sobre eles que a gente ouve falar. E, penso eu, é isso que faz com que a maior parte da nossa leitura continue sendo aquela escrita por homens, em detrimento da produção das mulheres.

Então eu fui numa enorme livraria com uma convicção simples: comprar uma obra escrita por uma autora brasileira contemporânea. Me senti meio mal por não conhecer o nome da maioria das escritoras mais jovens e fiquei triste por não encontrar as que leio na internet naquela livraria. Viajei sentada no chão dos corredores procurando nomes de mulher. Infelizmente eram poucas e ainda assim eu não conhecia quase nenhuma. Mas me senti inspirada por um título numa capa verde água…

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

Tem algo de existencial nele, uma linguagem fluida e uma narrativa que parece alguém falando com a gente. O estilo de escrita é meio ofegante, com duas vozes se misturando numa mesma frase, como quando alguém conta um caso. Isso torna a leitura veloz, mas ao mesmo tempo gostosa.

O narrador é um escritor que quer falar de Nina, alguém que está ausente na vida dele e com quem ele teve um caso rápido quando ambos ainda estavam na faculdade, onde se conheceram. Mas ela vai embora de repente, sem dar explicações, e deixa com ele uma caixa com 17 diários.

Descrevendo os acontecimentos o narrador também parece escrever um diário; devaneios sobre a própria escrita, algumas lembranças e histórias paralelas, enquanto tenta elaborar uma ficção na qual Nina e ele são personagens. A obra é sobre o ato de criação na escrita; a vida do narrador e a ficção criada por ele se confundem.

O livro me prendeu, a leitura é viciante. Só não li as 122 páginas mais rápido porque parava em várias passagens, me reconhecia nelas e viajava nas sensações provocadas pela narrativa. É o tipo de história que me extasia, a que explora os sentimentos dos personagens. Não há a concretude de uma cidade, um local bem estabelecido sendo descrito e vivenciado. O universo é o interior dos personagens e suas emoções duras e reais, o amor e o desamor, a presença, a ausência e as fugas nas relações, é sobre o medo e o ódio, as mortes em vida e a memória.

A cada bocado de livro eu parava para pensar e escrever e se escrevo muito enquanto leio uma obra, é porque ela tem sido inspiradora de alguma forma, tem mexido com coisas dentro de mim, meus padrões, minhas ideias e emoções. A história de O inventário das coisas ausentes vai e volta, é repetitiva, como um martelo fincando um prego, materializando os sentimentos narrados, como um prego entrando na gente.

“Você quase nunca me beija, ela reclama. É claro que eu te beijo, que ideia, pronto, acabo de te beijar. Nina esboça um sorriso, mas o seu olhar é tenso e melancólico. Eu a puxo para mais perto de mim. Queria te beijar mais vezes, eu penso, mas esqueço, quando vou ver o dia passou e a noite passou e eu esqueço, queria te beijar mais vezes, mas esqueço, eu quero dizer, mas ela não entenderia. Ficamos os dois em silêncio, eu observo a infiltração do teto, a infiltração adquire novos relevos a cada chuva, o mofo ameaça se instalar. Porque você não manda dar um jeito nisso logo de uma vez, pergunta Nina, como se ouvisse meus pensamentos, eu esqueço, respondo. Quer que eu chame alguém, ela pergunta, aquilo me causa um incômodo instantâneo e irracional, não, não precisa, deixa que eu mesmo cuido das minhas coisas, digo imediatamente, sem conseguir disfarçar a agressividade na voz. Nina se afasta, responde, por que você faz isso?, isso o quê? eu pergunto, pensando que ela se refere à infiltração, mas ela diz, você quase não me beija, você quase não quer sair de casa, você quase não fala comigo direito, e quando fala é com tanta impaciência, esse desamor. Para que você me quer aqui?, talvez seja melhor eu ir embora. Nina me encara triste, derrotada. Eu a abraço com força, eu penso, não vai, Nina, não vai, fica, eu penso, mas não digo nada, e novamente eu esqueço, e passam-se mais dias e mais noites.”                                                                                       

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