
Como foi difícil para mim ficar longe do meu reduto, meu quarto com meus livros, minha mesa, meus cadernos. Além da náusea com o cheiro do papel e da visão das letras impressas ou na tela do computador, comecei a sentir uma irritação muito grande em ter que pensar, raciocinar, refletir. Nesse período eu fui toda corpo físico, material e instinto.
A gestação é de um imenso e quase invisível esforço. A barriga cresce e toda a engrenagem por trás disso, toda a atividade exigida para formar um novo ser, tão complexo e completo, funciona sem que a gente veja, mas o corpo exige e a gente sente. O enjoo é só um dos sintomas. O que de mais impressionante eu senti, diria até de mais bonito, foi a necessidade de aterrar, de estar presente aqui e agora.
Na gestação e sobretudo no parto, é impossível prescindir das sensações do corpo. E a sabedoria animal, instintiva, física, primitiva, por vezes sufocada numa sociedade em que a tendência é dissociar-se da própria natureza, torna-se primordial. Mas é especialmente quando o bebê nasce que precisamos dessa sabedoria.
A dificuldade em concentrar-se, a “perda” da memória e o fastio intelectual são, segundo a teoria do Baby Brain, respostas evolutivas do cérebro para garantir a sobrevivência do novo serzinho por quem temos total responsabilidade. As pesquisas sugerem que durante o período em que ocorre o fenômeno há um aumento de atividade cerebral nas áreas do cérebro ligadas às habilidades emocionais e uma diminuição na área relacionada às respostas racionais.
Com todos os nossos sentidos voltados para o bebê, nos conectamos mais fácil e rapidamente com ele, tornando-nos mais capazes de reconhecer os significados das expressões faciais, dos vários tipos de choro e dos movimentos do seu corpinho, de modo a atender correta e prontamente às suas necessidades, diferenciando fome, dor, aconchego.
Compreender e aceitar a nova condição, buscando adaptar o que for necessário na rotina para lidar com lapsos de memória ou mesmo abrindo mão de atividades intelectuais por um tempo, é a melhor forma de lidar com essas mudanças tão importantes quanto temporárias.
Cerca de quinze dias após o parto, senti uma enorme vontade de ler e passei várias das longas horas de amamentação em leitura. E ainda lembro bem da sensação de já conhecer minha bebê quando a vi pela primeira vez e de sentir um vínculo muito forte. Foi a primeira vez em que percebi conscientemente o sábio movimento da natureza.