Do respeito às coisas desimportantes

crânio de calango

“Mamãe, você viu meu fóssil?”, disse Aimée, me mostrando os restos de um calango que ela encontrou no nosso quintal. Esse pequeno tesouro, provavelmente um presente deixado pelos nossos gatos, virou uma hora de brincadeira, perguntas, curiosidades. Primeiro foi descoberto o crânio, depois as vértebras e por último a pele. Umas coisinhas diminutas e frágeis, quase insignificantes pra gente, mas uma descoberta incrível pra ela.

Eu poderia dizer que Aimée é uma pesquisadora nata, mas eu sei que essa alegria de saber é característica essencial da infância, que a maioria das pessoas perde quando se torna adulta. A não ser que a gente seja um pouco Manuel de Barros: “[…] Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. […] Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios.”

vértebra de calango
fóssil de calango
fóssil de calango

Drops de maio: teses

O Drops é um resumo do meu mês baseado em filmes, livros, séries, qualquer entretenimento que eu consuma ou qualquer outra coisa aleatória que traga algum entusiasmo pra minha vida.

Eu gosto dos Drops porque é como fazer um inventário dos meus dias, mas também por ser um exercício de análise e uma forma de trabalhar minha memória, uma vez que sempre que eu escrevo sobre coisas que eu li, assisti ou que tiveram minha atenção de alguma forma, eu reviso, analiso, reflito e reorganizo ideias. Por isso, mesmo que eu demore a publicar esse texto, não abro mão de escrevê-lo.

Em maio eu não li nenhum livro de ficção e os filmes que assisti continuam seguindo a linha bandidagem, criminalidade e psicopatia do mês anterior. Não sei porque, mas ultimamente sempre quero assistir filmes de ação e suspense. Ah, e eu finalmente assisti Bacurau.

Livros

A formação social da mente [L. S. Vigotski]

Vigotski é um teórico russo muito importante, tanto para a educação quanto para a psicologia. Pode-se dizer que ele foi um dos que inaugurou a neurociência no início do século XX, mesmo sem todos os recursos tecnológicos que se tem hoje. Tanto isso é verdade que muitos neurocientistas tem o cuidado de explicar que a neurociência nas áreas dos estudos sociais e humanos, como a educação e a psicologia, não traz nada de realmente novo, mas contribui para corroborar, com evidências científicas, teorias já bastante antigas.

A grande contribuição dessa obra de Vigotski foi demonstrar como o desenvolvimento do pensamento e da linguagem humana só é possível por ser social. E a grande sacada de Vigotski é que ele conseguiu percorrer o caminho que o aprendizado faz no cérebro graças ao método materialista histórico-dialético. Parece chocante, para muita gente, que o estudo sobre desenvolvimento cognitivo, a priori tão fisiológico, neurológico, se correlacione com a perspectiva marxista, que muitos reduzem à doutrinação esquerdista (risos). Mas se pensarmos bem, lembramos que Engels (o parceiro de Karl Marx) já tinha concebido a ideia de que o trabalho humano e o uso de instrumentos são meios pelos quais o ser humano transforma a natureza, e ao fazê-lo, transforma a si mesmo. Isso é a plasticidade neuronal de que a neurociência fala e que Vigostski antecipou.

Para qualquer pessoa que queira compreender o desenvolvimento humano, essa obra é instigante, muito embora ela possa exigir uma certa iniciação científica, pela profundidade teórica. Ela costuma ser particularmente interessante para quem trabalha com crianças, por conta da descrição dos experimentos e a teorização a respeito do papel do brinquedo, do desenvolvimento do pensamento e da linguagem, incluindo o desenho, a escrita e a alfabetização. No entanto, é importante lembrar que esse não é um livro sobre desenvolvimento infantil, propriamente, mas sim uma teorização sobre a formação social da mente humana, o que, evidentemente, inclui a infância.

Filmes

Calibre [Matt Palmer]

Tudo começa quando dois amigos resolvem sair para caçar em um melancólico vilarejo escocês, fora da temporada de caça – ou seja, o lugar está vazio. Sem querer, eles se envolvem em uma tragédia e como são os únicos forasteiros, sabem que logo serão tratados como principais suspeitos de um crime. Todo o drama, então, gira em torno do que eles precisam fazer para se safar, e a tensão gerada é no estilo Crime e Castigo de Dostoiévski: o sentimento de culpa, a paranoia de estar sendo vigiado e de que todos sabem o que você fez.

Calibre é um filme de suspense, porém morno. Tem o mérito de conseguir criar um ambiente tão frio e de um sombrio tão intenso que a gente começa a ficar triste como o vilarejo em que a história se passa parece ser. Não me empolgou, mas também não chega a ser um filme ruim.

Tese sobre um homicídio [Hernán Golfrid]

Esse filme argentino, estrelado por Ricardo Darín, é um suspense baseado no livro homônimo do autor Diego Paszkowski . A história começa quando um crime hediondo acontece na universidade onde o protagonista, um professor especialista em direito criminal, dava aulas.

Um de seus alunos, que estava em sala quando o crime ocorreu, se torna suspeito para o professor, que fica obcecado pelo contexto do homicídio – uma jovem garçonete do café próximo à universidade é estuprada e morta de maneira violenta. Junto com o corpo, o assassino deixa uma placa com os dizeres “morte a mulheres como ela”.

O jogo entre professor e aluno – entre a desconfiança que se torna paranoia, do mestre, e o ar de desafio, de pequenas pistas e sugestões, do aprendiz – dá a tônica do filme.

A história tem um apelo hollywoodiano, embora seja mais sutil e sofisticada que os clássicos “tela quente”. É um filme bom de assistir, embora também não seja um super filme.

A casa que Jack construiu [Lars Von Trier]

Esse é um filme de Lars Von Trier, e os filmes desse diretor sempre me dão a sensação de assistir a uma exposição de arte em movimento, como se as cenas fossem quadros fugidios que se organizassem para formar um roteiro de cinema. O que eu quero dizer é que o impacto estético, visual, do filme, costuma ser tão ou mais intenso, para mim, do que o roteiro propriamente dito, de texto, da história. Não que os diálogos ou a história não sejam interessantes, mas o impacto estético é algo que não se pode ignorar.

O filme conta a história de Jack, um engenheiro civil que queria mesmo era ser arquiteto. Ele sofre de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e está tentando construir, com as próprias mãos, a casa perfeita. Jack é noiado, frustrado, obcecado por limpeza e, de fato, tem uma mente psicopata.

A história é narrada por ele em um diálogo – com ares filosóficos, mas carregado de deboche e ironia – com uma voz que ele chama de Virgílio (alusão ao poeta romano). Jack conta como orquestrou alguns de seus principais crimes, defendendo que eles são verdadeiras obras de arte, pois são tanto expressão de suas angústias e questões existenciais, quanto uma busca por criar algo maior do que ele mesmo – a transcendência encontrada na criação artística.

Bacurau [Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles]

É difícil falar sobre Bacurau, porque, nesse momento, me parece que falar sobre Bacurau é muito mais do que falar sobre um filme. Por bem ou por mal, por intenção ou não por parte dos diretores, a obra foi apropriada pelo contexto histórico.

Com isso, quase todas as críticas fazem referência ao momento que vivemos agora, como se a obra estivesse à mercê da realidade atual, mesmo sabendo que o filme começou a ser produzido muitos anos atrás. E o problema disso é que, me parece, tanto elogios quanto críticas negativas saem muito mais fervorosos do que deveriam ser.

Kleber Mendonça Filho é diretor de um dos meus filmes brasileiros favoritos [O som ao redor]. E Bacurau foi aquele alvoroço, festival de Cannes e tudo – embora isso não seja mais novidade para ele.

O filme tem três partes que se diferenciam bastante, em contexto, em narrativa, em estética, em qualidade. O primeiro é bastante realista. Poeira, caminhão, um bandido sendo procurado, uma conterrânea que foi embora chegando para um velório em Bacurau… mas aqui e ali algo meio surreal aparece: a droga que as pessoas tomam coletivamente [seria uma alusão ao “soma”, droga tomada pela população em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley?], a tecnologia contrastante com a pobreza local, uma casa muito pobre abarrotada de livros, uma caçamba da prefeitura despejando livros, ao invés de comida, na rua de terra…

A segunda parte sai do realismo brasileiro e entra na estética hollywoodiana, com atores estrangeiros e com aquela aura de cinema americano de ação. Mas o conteúdo é um deboche: ironiza o brasileiro do sul e sudeste, que se acha superior ao nordestino e ironiza o americano, que se acha superior a qualquer um e só considera violência aquilo que é praticado contra seu povo, enquanto ele mesmo pode se dar ao direito de matar por esporte.

A terceira parte, talvez a mais original, reúne os dois contextos anteriores num confronto. O estilo lembra um cangaço moderno, a população de Bacurau resiste, organizada, coesa, justiceira.

O filme tem seus méritos: a crítica social sempre presente, a atuação de Sônia Braga sempre impecável, algumas referências muito boas, como a crítica ao cinema hollywoodiano western, ao patético sniper americano… e a cena que apresenta a temática do museu de Bacurau, para mim uma das melhores sacadas do filme.

Porém, também tem problemas. Um deles é a dificuldade em entender os diálogos, não sei se pelo áudio ou pela dicção e sotaque dos atores. Além disso, pode ser que minha percepção mude com o tempo, mas a primeira impressão que ficou é que falta continuidade, tanto de roteiro quanto de fotografia, que tem muitos altos e baixos. A discrepância pode até ser proposital, mas a sensação que dá é uma história que vai travando e que só se desenrola e consegue fluir bem no final.

Um crítico de cinema que li [Luis Zanin], disse que o filme simboliza o que nos falta: a resistência de uma comunidade que tem seu território ocupado com violência e que não se reduz a ser caça. E nós nos sentimos assim hoje no Brasil. É verdade que nos sentimos assim, e talvez por essa identificação tanta gente amou o filme. Mas, para mim, a intenção da obra é outra coisa. O quê, eu ainda estou descobrindo e, como não quero ser injusta, vou deixar o texto completo para depois.

Leitura com bebês: o papel da literatura na formação

leitura com bebês

Sempre achei fascinante como Graciliano Ramos, em Vidas Secas, conseguiu colocar na secura da palavra a vida de escassez das personagens e construiu com densidade emoções e sensações expressas numa língua parca, às vezes composta por resmungos e gestos.

Não é por acaso que seja assim, o pensamento organizado é resultado da elaboração da linguagem: quanto mais complexa ela é, mais bem construída é a expressão do pensamento.

Quando comparamos essa representação literária com a noção de que temos dois nascimentos, um biológico e outro psíquico, isso se torna particularmente interessante. Nosso nascimento psíquico é simbolicamente representado pela linguagem e é com ela que nasce o sujeito.

A fala se desenvolve com a escuta, que não é passiva. Os bebês têm uma sensibilidade muito grande à voz humana e quando ouvem tentam construir significados. Conversar com bebês, algo que fazemos intuitivamente, desconsiderando a ausência de respostas diretas, é crucial para o seu desenvolvimento.

É nesse sentido de construção de significados que a literatura assume um papel importante na formação do sujeito, pois embora o vocabulário varie com cada família, a fala do dia a dia é geralmente pobre, composta basicamente pelo imediato da vida cotidiana. A literatura, por outro lado, traz uma riqueza não apenas de palavras, mas de maneiras distintas de expressar sentimentos, ver e viver o mundo.

Desse modo, costumam surgir diferenças entre o desenvolvimento de crianças que têm contato com múltiplas formas narrativas, com sua diversidade poética e literária, capaz de promover um capital psicológico e cultural mais amplo, e aquelas de famílias nas quais impera a língua do dia a dia, com tensões pouco elaboradas.

Cabe aqui abrir um parênteses a respeito de indivíduos não alfabetizados e povos de cultura oral, uma vez que não se trata de dizer que a ausência da escrita significa ausência da capacidade de reflexão e desenvolvimento da autonomia.

Existem múltiplas formas narrativas e a literatura é apenas uma delas. A tradição oral, de contação de histórias, que passando de geração para geração carrega conhecimento adquirido, cultura e valores, nos mostra isso. No entanto, é preciso considerar o papel da literatura nas sociedades letradas, sobretudo quando a falta de acesso a ela reforça desigualdades sociais.

Países como a França e a Colômbia desenvolvem políticas públicas para incentivar a leitura desde a primeira infância, distribuindo livros infantis gratuitamente para as famílias e fomentando a criação e manutenção de bibliotecas públicas.

Com isso, assumem que diminuir as distâncias sociais não depende apenas de aumentar a renda da população mais pobre, mas contribuir para o acesso aos bens culturais, como a literatura, e promover maior igualdade na formação intelectual dos cidadãos.

Em Vidas Secas, o autor demonstra a dificuldade dos personagens em pensar a si mesmos como sujeitos devido a escassez da linguagem. Mas, além disso, expõe a relação de dominação pela palavra, quando os poderosos agem arbitrariamente com os pobres através do discurso sem que estes consigam se opor, pois pouco podem refletir sobre a opressão ou mesmo expressar o que sentem.

Assim como cuidamos dos bebês dando colo, carinho e boa nutrição, assim como conversamos e cantamos com eles, devemos nos apropriar dos livros como alimento fundamental para o seu desenvolvimento psíquico e social, pois eles não servem apenas como meio para o aprendizado da leitura e da escrita, mas para aprender a ler a si mesmo e o mundo de maneira mais plena. E, com isso, possibilitar a construção de novas e independentes histórias.

***

Nas próximas semanas, o blog terá uma série de textos sobre os benefícios da leitura para o desenvolvimento dos bebês e dicas de leitura para cada faixa etária, até os 2 anos.

2 anos da Aimée e uma pequena reflexão sobre os “terríveis dois anos”


Aimée fez 2 anos dia 23 de abril de 2019 e o período que antecedeu o aniversário dela foi tenso! Todo mundo em casa adoeceu…

Que o diga o pai, em pleno aniversário da filha (e dia de São Jorge), indo ao médico descobrir uma sinusite grave, que não tinha sido diagnosticada apesar das três idas na emergência do hospital particular no final de semana.

A gente adiou a festinha (que era só a festinha caseira de sempre), mas para não passar a data do aniversário em branco fui com ela até a padaria comprar um bolo de limão (e acabei fazendo essas fotos, que não estavam nos planos e que ficaram tão fofinhas…).


O pai cantou parabéns antes de ir para o médico e ela, toda sorridente, com aquele jeito manhoso de quando recebe chameguinhos, pediu “vamos, mamãe, Patrulha Canina de aniversário!”.

Primeiro nós ficamos pasmos com a associação que ela fez (como assim Aimée sabe o que é presente de aniversário e como assim até já escolheu o que quer?). Mas depois lembramos do nosso comentário quando ela viu o Marshall (o cachorrinho bombeiro da Patrulha Canina) numa loja de brinquedos e ficou abraçada nele um tempão. O pai perguntou se a gente não devia dar de presente de aniversário e na hora eu disse que não sabia. Só que eu jamais ia imaginar que ela se lembraria disso!

O fato é que Aimée está crescendo (passa tão rápido e muda tanto!) e o tempo todo nos surpreende com as coisas que diz. Ela vai acumulando frases e situações e organizando os contextos e usos na cabecinha dela. E aí, num momento oportuno, ela aparece com uma elaboração toda certinha, que impressiona a gente. Aliás, o desenvolvimento infantil é um dos temas mais fascinantes para mim.

Mas há muitos anos escuto que essa idade, tão interessante e tão cheia de descobertas, é o “terrible two” (terríveis dois anos). Honestamente, eu nunca gostei dessa rotulação. Primeiro porque é injusta com a criança, ao estigmatizá-la. Depois, porque impede que a gente entenda as especificidades dessa fase.

Muita coisa muda neurologicamente, emocionalmente e fisicamente na criança que está deixando de ser bebê. E essa transformação é confusa e estressante não só para nós, mas principalmente para elas, que são capazes de aprendizados incríveis em uma velocidade intensa, mas que ainda não conseguem regular plenamente suas emoções.

É por isso que as birras acontecem. Não se trata de manipulação e desafio, mas de um pedido de socorro: é um ser humano que chegou na terra há apenas 2 anos querendo dizer “eu ainda não sei lidar com isso tudo sozinho”. Por isso o acolhimento é tão importante e tem efeitos tão positivos nessas horas – ao contrário das brigas, dos sermões e da raiva, que não só não educam como pioram a tensão.

Seria uma mentira descarada dizer que educar criança pequena é fácil, mas eu acredito muito que informação liberta a gente e que empatia transforma as relações. Ao criar nossos filhos, precisamos de coragem para rever antigos conceitos e repensar nossa forma de lidar com o outro – especialmente quando ele nos “desafia”, mesmo sem querer.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que amor, afeto e acolhimento nunca são demais. Podem até ser demais para um mundo que já não parece merecer, mas jamais serão em excesso para nossas crianças. Na verdade, tudo é mais difícil quando falta compreensão e sobra ódio. Então não é amor, abraço e colo o que estraga as pessoas na infância, pelo contrário: é não saber ouvi-las, respeitá-las e dar-lhes amor quando mais precisam.

Com a chegada dessa idade, que sem dúvida não é simples, mas que eu tenho absoluta certeza de que não deve ser vista com olhos mal acostumados por preconceitos e ideias agressivas, só quero desejar os mais felizes 2 anos birrentos para Memê. E que se for pra ser terrível, que sejamos nós “terríveis” com as bobagens desse mundo.

***

Ps.: Fizemos uma festinha caseira cheia de corações, pra combinar com o nome dela, que em francês significa Amada. Participaram da festa as quatro amiguinhas mais especiais, de idades bem diferentes, mas que fizeram muito parte da rotina e das brincadeiras dela nesses 2 anos de vida: a Luísa, que tem um verdadeiro dom pra lidar com crianças e que leva Aimée pra passear desde que ela era bebezinha; a Raylla, criança cheia de vida e criatividade, que inventa as brincadeiras mais marotas e diverte Aimée até as gargalhadas; a Sophia, que sempre para pra conversar com Aimée e que apesar da idade não tem problema em emprestar os brinquedos dela, até as Barbies mais bonitas; e a Marcela, companheira mais novinha, que Aimée ama mimar, porque ela é bebê. <3