Do respeito às coisas desimportantes

crânio de calango

“Mamãe, você viu meu fóssil?”, disse Aimée, me mostrando os restos de um calango que ela encontrou no nosso quintal. Esse pequeno tesouro, provavelmente um presente deixado pelos nossos gatos, virou uma hora de brincadeira, perguntas, curiosidades. Primeiro foi descoberto o crânio, depois as vértebras e por último a pele. Umas coisinhas diminutas e frágeis, quase insignificantes pra gente, mas uma descoberta incrível pra ela.

Eu poderia dizer que Aimée é uma pesquisadora nata, mas eu sei que essa alegria de saber é característica essencial da infância, que a maioria das pessoas perde quando se torna adulta. A não ser que a gente seja um pouco Manuel de Barros: “[…] Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. […] Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios.”

vértebra de calango
fóssil de calango
fóssil de calango

Aprender com o caos

pássaro negro no fio - alexandra duarte
Foto que fiz faz tempo e tem um significado muito especial pra mim

Sempre acho o primeiro dia do ano muito amarelo e modorrento. Não sei o que acontece, mas sempre foi assim. Amarelo, modorrento, abafado, entediante, e que piora porque geralmente eu sinto uma dor de cabeça insistente e irritante, talvez pela noite mal dormida, talvez pela bebida, talvez pelo clima de domingo que o dia primeiro tem, mesmo quando cai num sábado.

Esse ano, não. Por alguma razão, o céu estava azul e lindo. O dia tinha cores normais, suaves, pasteis, nada do amarelo-ressaca. Soprava um vento bom, os humores de todos com quem eu estava, e o meu também, eram os melhores, suaves como o dia. Não efusivos, mas tranquilos. A verdade é que fazia muito tempo que eu não sentia uma energia tão boa, de férias, embora as minhas estivessem acabando ali, de viagem na estrada, embora eu estivesse em casa.

Se essa tranquilidade é prenúncio de um novo ano bom, eu não sei, mas depois de tudo que vivemos desde 2020, nada mais justo que uma forra. Embora eu não possa dizer que 2021 foi um ano ruim pra mim. Foi cansativo, exaustivo, corrido, porém, ruim, não. Eu me mantive viva em mais um ano de pandemia, eu me mantive relativamente firme e sóbria vendo tanta coisa acontecer, sentindo tanto por tudo, trancada em casa com uma criança de 4 anos, atrasando trabalhos por conta da segunda onda, abandonando semestre de faculdade, esgotada, exaurida, querendo que tudo acabasse logo. Mas não foi um ano ruim.

Em dezembro, já não aguentava mais nada. Tirei um mês de férias e trabalhei na primeira semana toda, porque sou o Julius e tenho dois empregos (na verdade eu tenho um emprego normal e além disso faço documentário, então é diferente, mas dá na mesma). De julho a dezembro, não li nenhum livro, não estudei, só trabalhei. Não li notícias, não escrevi textos de política, não tretei com bolsominions. Não conseguia, não tinha ânimo, estava muito, muito cansada. Só queria ficar quietinha no meu canto. Bem quietinha e recolhida.

Estava esgotada, mas trabalhei em coisas que tem significado pra mim. Vivi uma vida inteira em poucos meses. Olhei muito pra dentro de mim mesma, refleti. E fiz muitas coisas, muitas daquelas que me travavam antes, me colocavam medo e ansiedade. Mas fiz. Sem pensar muito, só fiz. Encarei. Não dei ouvidos pras vozes da minha cabeça que colocavam em dúvida meu valor e minha capacidade. E deu certo.

Passei a aceitar com mais tranquilidade situações não tão tranquilas. Acho que amadureci muito, afinal. Desenvolvi mais estabilidade emocional. Passei a ter mais clareza dos meus limites, dos meus medos e do que realmente desejo e preciso. Não sinto mais tanta necessidade de aprovação, validação. Não consigo mais carregar fardos de mágoas e ressentimentos. Eu só sinto vontade de viver bem, de fazer o que gosto e não perder tempo.

Pensei demais sobre a transitoriedade da vida, sobre como é tudo tão fugaz, é tudo muito incerto e a gente tem tão pouco controle sobre as coisas que o meu desejo mais profundo é não perder muito tempo com nada que não me dê sentido e vontade de viver. Curtir um dia de cada vez, sem pressa. Não me perder em vaidades, em necessidades colocadas pelo mundo e não por mim. Viver devagar, porém, viver muito, com intensidade. É um desejo antigo e tenho caminhado mais nessa direção.

Será que tudo isso tem a ver com passar dois anos em pandemia? Será que tanta tensão, afinal, me colocou em perspectiva a respeito dos meus próprios dilemas, problemas, propósitos? Não sei. Sei que não sou do tipo que acha que a pandemia veio ensinar coisas. A pandemia não veio ensinar nada; nós, por outro lado, sempre temos algo a aprender. O que eu sei é que talvez o meu maior aprendizado de 2021 foi expresso totalmente nesse tweet da escritora Liliane Prata:

That’s all, folks!

Espírito literário

Quando eu estava no 2º ano do ensino médio, estudei em uma escola em que a biblioteca era improvisada. As estantes ficavam coladas na parede de uma sala pequena e uma professora fazia bico de bibliotecária nos intervalos de aula, sentada em uma mesa de madeira antiga, onde anotava os empréstimos num caderno brochura grande.

O improviso gerava dois problemas: ou a biblioteca passava bom tempo fechada ou ficava aberta sem ninguém para tomar conta. O segundo problema muito me agradava.

Eu tinha saído de uma escola que tratava seus estudantes de maneira distante e desconfiada e a biblioteca seguia essa linha de relacionamento. Não era um ambiente gostoso. Aliás, nada era gostoso naquele lugar em que a diretora um dia me olhou de cima a baixo e disse “que roupa ridícula, mocinha”, na frente de um punhado de adolescentes “bulinadores” na hora do intervalo.

Mas a biblioteca conseguia ser mais desestimulante. Na sala cinza e asséptica, não era possível acessar as prateleiras de livros, portanto era preciso pedir a obra para a bibliotecária fria atrás da bancada, o que impedia a experiência de olhar, passar os dedos, cheirar, abrir aleatoriamente e cair em êxtase ao ler uma passagem qualquer de um livro desconhecido ou sentir a boca aguar com algum título instigante.

Na escola nova a biblioteca era minha. Eu sentava no chão empoeirado da sala escura e entontecia com todos aqueles livros à minha disposição. A diretora tinha tido a brilhante ideia de deixar uma poltrona velha nessa sala, uma maravilha reclinável e extremamente confortável, em que eu sentava regulando a melhor posição e ali reinava solitária por horas e perdia o tempo, perdia aula, perdia o horário de ir para casa.

A biblioteca improvisada, de prateleiras abarrotadas e desorganizadas, que servia de depósito para objetos antigos, era meu lugar favorito.

***

Numa época obscura da minha vida, fui acometida por um mal que eu mesma diagnostiquei como TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo – literário.

Eu estava no início da leitura de O fantasma da Ópera quando meu disco foi engolido e fiquei repetindo, repetindo e repetindo a leitura do mesmo parágrafo sem conseguir avançar. As letras eram um código neutro, que entrava na minha cabeça sem fazer sentido, apesar de tudo parecer tão simples, então eu me forçava a reler as palavras a ponto de nausear.

Em certa altura, me dei conta de que não estava lendo, mas sim macerando meu cérebro e torturando minha mente na tentativa ridícula de fazer uma leitura profunda e bem feita. Não totalmente derrotada, abandonei o livro e fiquei meses sem ler nem um sequer. Um dia abri uma gaveta e ele estava lá, me esperando velho e paciente.

Decidi retomá-lo sem possibilidade de paradas para certificação de entendimento e proibida de reler parágrafos. Engavetei a obsessão perfeccionista e o bloqueio se desfez.

O livro é sempre o mesmo, afinal, mas a leitura não, assim como a gente.

Criei meu princípio de que os livros têm hora. Se eu sinto que não entrei na vibração da história, que ela caminha lenta e pesada, deixo estar. Às vezes é só uma questão de saber respeitar o momento certo do encontro.

Cinzas

Eles se acumularam na parte de cima do meu armário desde os seis ou sete anos e pesavam em mim. Com dezesseis, resolvi queimá-los, todos os diários que tinha tido até então, numa fogueira malfadada pela terra molhada, trêmula, não de frio, mas de emoção.

Era o meu desejo de me reinventar impedido pela existência de um passado escrito. Senti que podia recomeçar depois daquela fogueira, limpa, uma folha em branco, um caderno novo, emoções novas, um outro eu.

Constantemente sinto vontade de trocar de pele, mudar tudo. Não tento ser outra pessoa, trocar de pele é tentar todos os meios de ir de encontro à minha essência verdadeira, ser tão eu que me baste. Finda. Pois sinto que estou inteira, aqui, em algum lugar dentro de mim, um lugar distante dentro de mim.

Pronuncio meu nome em voz alta, me chamo e sei que sou, ainda que não saiba o quê; existo. Existo um pouco no meu cabelo e nos meus olhos e eles mudam. Existi num sorriso que já mudou, nas roupas que já foram. Mas a palavra, depois de escrita, é sempre presente, mesmo que não diga de mim mais nada.

Guardo todos os diários seguintes. Releio, às vezes. Não sinto mais que preciso destruí-los para poder recomeçar, pelo contrário. É como um quebra-cabeças, um jogo de memória, uma linha que vai ascendendo, fazendo sentido.

Por vezes me esqueço, esqueço de sonhos, e quando volto, quando voltam os sonhos, é como se fosse a primeira vez. Então me surpreendo, lendo; o que escrevo agora, já tinha escrito de outra maneira, porque já tinha pensado, já tinha sido tudo aquilo. Me dou conta de que me repito, mas às vezes também encontro escrito o que já deixou de existir.

É verdade que me crio e me invento; me invento pelo que sou e me forjo com o que inventei, por vezes livre e sem pensar, pela vida que me experimenta e que experimento; por vezes metodicamente, um trabalho minucioso e artesão, mas nunca frio, nem como uma farsa – não esculpo uma máscara, pois sou tirada das vísceras; dói.

Crio como uma síntese; algumas coisas ou nunca morrem ou se transformam das cinzas.

Fotografia: autoria desconhecida (retirada do Pinterest)

Uma breve história do medo

“Eu tenho medo e medo está por fora/O medo anda por dentro do teu coração/Eu tenho medo de que chegue a hora/Em que eu precise entrar no avião…” (Belchior)

Eu não tinha medo de voar. Durante a infância viajava muito, mas só de carro ou de trem; voar, embora não fosse motivo de receio, também não chegava a ser objeto de desejo. Meu conceito de viagem simplesmente envolvia estradas: era fascinada por elas, me sentia inspirada e livre.

Quando pequena, entretanto, sonhava frequentemente que estava dentro de um avião que decolava, mas que não se mantinha no ar; ele precisava descer em uma pista de carros e subir em seguida, tornando a descer e subindo de novo. Não havia perigo e eu não acordava com medo, mas me sentia frustrada, como se estivesse impedida de algo e não tivesse controle da mente.

Depois da minha primeira viagem de avião, esse sonho cessou. Foi como se eu tivesse provado ao meu inconsciente que o avião era capaz de permanecer no ar, estável, sem precisar descer durante o trajeto. Segui por anos viajando com alguma frequência e tranquilamente, sem qualquer tipo de medo ou receio, até que as coisas começaram a mudar.

Dias tristes, noites melancólicas

Lembro bem da noite em que entrei no avião inicialmente segura e animada, mas tomei uma atitude atípica no decorrer do trajeto: olhei várias vezes as horas no relógio e não conseguia manter a atenção em uma conversa. A ansiedade e irritação me dominaram totalmente quando o avião demorou a pousar. Eu olhava para baixo e via a cidade iluminada, o avião se aproximava dela e depois tornava a subir.

Finalmente pousamos e por mais aliviada que eu estivesse por ter os pés no chão, a minha mente começava aos poucos a trabalhar no medo e uma angústia apontava no peito. Eu não entendia o que estava acontecendo dentro de mim, no entanto sentia irritação e ansiedade constantemente e, apesar da viagem que me animava durante o dia, à noite eu ficava melancólica e distante. Comecei a não conseguir dormir, mas o medo ainda era algo difuso, por isso eu não associava a nada muito importante, nem sabia que teria um problema grande pela frente.

Estado de alerta: não dormir para não morrer

Voltei para casa após o primeiro episódio de ansiedade em viagem e poucos dias depois peguei novamente o avião. Embora, por princípio, eu quisesse ir – digamos que eu tinha em mente que minha “missão” na vida era viajar, conhecer lugares e culturas, portanto nunca dizer não para as oportunidades de viagem -, eu não estava confiante.

A nova partida não contribuiu para me acalmar o espírito, pelo contrário. O voo foi problemático: começou com um atraso de oito horas, que fez os ânimos dos passageiros se alterarem a ponto de alguns gritarem que o avião iria cair. Eu, de antemão cheia de dúvida e ansiedade, diante daquilo comecei a pensar que era um sinal; eu deveria voltar para casa o quanto antes!

Pela primeira vez senti a garganta apertar e o peito queimar, enquanto o resto do corpo gelava e paralisava. Tinha vontade de gritar, correr, puxar os cabelos, fazer qualquer coisa que pudesse aliviar o terror. O ar me faltava, o medo era incontrolável, eu achava que ia surtar a qualquer momento. Ainda assim, subi no avião e sofri calada com as turbulências, barulhos suspeitos e com minha mente escandalosa, que olhava os passageiros a fim de verificar se tinham cara de que iam morrer naquela noite.

Era o início do estado de alerta, uma sensação incontrolável e insuportável. Em três cidades e três hotéis diferentes as noites foram horríveis e iam piorando gradativamente. No primeiro hotel, eu me senti profundamente triste; no segundo, me vi aterrorizada por espíritos que não via, mas achava que sentia – era um edifício antigo; no terceiro, eu tinha certeza de que acordaria no meio de um incêndio e me mantive alerta imaginando mil maneiras de fugir pela janela do terceiro andar.

Socorro, não estou sentindo nada

Em todos esses dias, entretanto, eu não externalizei o pânico. Na volta para casa, desesperada com o voo e tentando me sentir melhor, decidi que não iria na próxima viagem, marcada para dali a duas ou três semanas. Como consequência de esconder a sensação aterrorizante que tomava conta de mim, não conseguia falar, conversar normalmente, tampouco conseguia sentir algo além do medo.

Ao chegar em casa, sequer pude ficar feliz por estar em terra; qualquer sensação de euforia, conforto e emoção positiva era alheia a mim. Depois de entrar no avião para voltar para casa, não lembro quase nada do que fiz, senti e pensei pelos dias e semanas seguintes. Era como se eu estivesse morta. Lembro apenas que cheguei em casa vazia e sem ânimo e que à noite sentei em uma lanchonete, mas não consegui comer. Lembro que olhei ao redor e tudo parecia distante, irreal.

Foi então que tive a sensação de  ver a mim mesma a um metro de distância do meu corpo, suspensa, tal qual um balão de ar. Era como se o meu eu – espírito, mente, personalidade – estivesse fora e eu tivesse virado apenas um corpo vazio, distante de mim mesma. Quando eu não sentia medo, não sentia nada, a não ser um torpor. Uma música do Arnaldo Antunes nunca fez tanto sentido como naqueles dias:

“Socorro não estou sentindo nada, nem medo nem calor nem fogo, não vai dar mais pra chorar, nem pra rir. Socorro alguma alma, mesmo que penada me empreste suas penas…já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada…” (Arnaldo Antunes).

 É como morrer e é sobre se sentir completamente só

Logo me dei conta de que os sonhos com avião tinham mudado. Eu já não tinha sonhos frustrantes, em que um avião subia e descia, incapaz de se manter estável no ar. Eu sonhava com acidentes terríveis, aviões explodindo, chocando-se em pistas de carros e destruindo aeroportos. Em todos esses sonhos, eu estava observando de fora e em todos eles eu dizia: “Eu sabia! Eu sabia que ia acontecer! Eu sabia que ia cair! Eu disse!”. E acordava.

Depois de uma semana em alerta, sem conseguir dormir, temendo o botijão de gás todas as noites, achando que jamais conseguiria entrar em um avião novamente, com medo de rasgar as estradas alguma vez mais na vida, tendo horror a prédios com mais de um andar, temendo a morte, temendo a vida, insensível a qualquer estímulo, eu resolvi pesquisar o que sentia.

Em parte, a gente sofre por se sentir só na dor. Enquanto eu sofria sem dormir, todos dormiam. Enquanto eu sentia o peito explodir no avião, as pessoas iam conversando. Enquanto eu me sentia vazia, fora de mim e sem emoção, todos pareciam animados. Enquanto eu me sentia morta, todos viviam. E foi conversando com pessoas que passaram pelo mesmo que eu, que comecei a melhorar.

As crises de pânico começaram quando eu fazia aquilo que mais amava e voltavam sempre que tornava a fazer: viajar. Eu achava que jamais seria capaz de sentir novamente uma velha conhecida da infância, a sensação indescritível de estar em um lugar novo; um feliz frio na barriga, uma ardenciazinha boa na pele, da mudança de ares, um pôr do sol na estrada, uma cidade iluminada vista do alto, a decolagem e o pouso, a emoção da partida e a emoção do retorno…

No auge do pesadelo que era ter pânico, eu entendia a expressão fundo do poço. Sentia que tinha conhecido o inferno e achava que nunca nunca mais seria a mesma, que uma vez conhecendo a morte, seria impossível voltar à vida. Aconteceu… e o começo do fim foi encarar.

 

 Fotografia: Alexandra Duarte