
Já dizia o ditado: antes tarde do que nunca. Meu Drops do mês de março tá saindo quase em meados de abril. Tudo culpa da pandemia causada pelo corona vírus.
Livro: Êxtase da transformação – Stefan Zweig
O livro do escritor austríaco Stefan Zweig [autor famoso, entre nós, pela obra Brasil, país do futuro], começa com uma linguagem que lembra um pouco os romances clássicos antigos, no estilo Jane Austen: muito rica em descrições do ambiente, do período histórico e da personalidade da protagonista, Christine. Ela é uma jovem assistente dos Correios, de família empobrecida devido à Primeira Guerra Mundial, vivendo uma vida de cuidados com a mãe doente e privações de toda sorte, das quais ela mal tem noção.
Tudo muda quando ela é convidada por uma tia rica a passar férias em um hotel de luxo na Suíça e aos 28 anos descobre todo o luxo e felicidade que o dinheiro pode comprar, capaz de comprar até mesmo uma juventude e beleza que ela não sabia que tinha. Christine passa por uma transformação extasiante.
Como uma queda monumental, entretanto, vem a segunda parte da história, muito diferente da primeira em estilo narrativo, quase como se fosse um anexo de última hora, e com sequências de cenas que lembram um filme: mais velozes, menos descritivas, mais cortantes [lendo a história do autor, fico sabendo que essa segunda parte foi escrita anos depois e justamente para ser um roteiro de cinema]. A obra, então, sai da linguagem de romance cômico e delicioso, cheio de frivolidade, e se torna densa, sombria, fazendo com que os corrosivos sentimentos das personagens nos corroam também.
É um livro muito gostoso de ler, e bastante surpreendente no final, que primeiro nos extasia com o luxo e a riqueza, e depois nos anestesia quando explora a desigualdade social, como legado da grande guerra, e o significado de liberdade para pessoas tão desprivilegiadas.
Filme: Brilho eterno de uma mente sem lembranças – Michel Gondry [direção]/Charles Kauffman [roteiro]
Brilho eterno de uma mente sem lembranças é um filme incomum. Engraçado e triste ao mesmo tempo. Suave e perturbador. Enquanto assistia, eu ficava pensando, que viagem! Um apagamento de memória seletiva, feito por médico em uma clínica, a pedido do paciente!
Porém, depois que acabou, o filme ecoou em mim durante dias. A sensação sempre voltando, as cenas se repetindo…
Pensei então sobre o que torna um filme clássico: 1) um roteiro incomum; 2) uma estética que chama a atenção [os cabelos coloridos de Clementine, o ar excêntrico e depressivo de Joel]; 3) uma questão ética e filosófica, que retorna à nossa mente sempre e que não encontra resolução fácil; 4) ser capaz de não se limitar a dizer um algo em si mesmo – um apagamento de memória deliberada, experiência de ficção científica – mas ir além, pelas questões psicológicas, éticas, da complexidade das relações humanas…
É um filme que vale a pena ver, ainda que seja um pouco cansativo de acompanhar, graças à sequência narrativa, que só faz sentido no final.
Séries: Jessica Jones [terceira temporada]
A primeira temporada de Jessica Jones é a mais icônica: mostra quem ela é e a que veio, apresenta um vilão clássico, poderoso e insuportável, lutando contra uma heroína de veia dramática, cômica, debochada e sobretudo muito real.
A segunda temporada foge disso e explora as questões mais obscuras das histórias pessoais, tanto da protagonista quanto dos outros personagens, como sua irmã celebridade Trish, a poderosa advogada Jeri e o vizinho e amigo Malcolm, dando mais profundidade a cada um. Isso torna a sequência bastante confusa, e ao mesmo tempo menos violenta que o esperado.
A terceira temporada retoma a característica Jessica Jones da primeira, mas muito mais furiosa. Eu esperava mais daquela veia cômica, mas a série só se adensou, se tornou mais dramática e o desenrolar dos acontecimentos fugiu totalmente de qualquer coisa que eu esperava. Gostei de toda a sequência, mas achei que o final foi excessivo.

