Bee or not to be

Quando entrou fevereiro, eu achei que ia surtar.

Foi final de semestre para mim e, como sempre depois de algum descanso eu fico otimista demais, achando que sou capaz de tudo, decidi fazer quatro disciplinas no segundo semestre do doutorado, todas bem pesadas. Dei o melhor que tinha para dar, mas sentia vontade de chorar antes, durante e depois de algumas aulas antropologia linguística.

Uma delas era antropologia visual, a mais divertida, a que eu não faltei nenhuma vez e que seria quase um descanso na correria da semana, se não tivessem tantos trabalhinhos e um curta para entregar no final. De verdade, achei que não ia dar conta. Estava sem ideia, cansada, não tinha tempo para nada… mas, como eu odeio desistir das coisas, resolvi pelo menos tentar.

Minha primeira ideia era um fragmento visual sobre o tempo. Pensei em como minha geração fica num limbro entro querer fazer tudo e não querer fazer nada; entre buscar realização profissional e precisar de dinheiro, mas desejar, principalmente, viver uma vida mansa, com o tal “tempo de qualidade”. Por isso, muitos da minha geração nascem e crescem na cidade, mas acabam buscando um retorno ao campo, um êxodo urbano.

Aí eu lembrei do marido da minha prima, uma pessoa jovem, que sonha em morar no mato… e que cria abelhas.

Então, eu pensei em um curta sobre abelhas.

E comecei a vê-las em todo lugar.

Nos grafites dos viadutos do Plano Piloto, dando voltas na minha Pepsi Zero na lanchonete da UnB, no livrinho que Aimée tem, que se chama “Por que precisamos das abelhas?”, em Marx, que estudei antropologias marxistas, que faz uma reflexão sobre o trabalho humano em relação ao das abelhas…

Passei a pesquisar tudo sobre elas: abelhas são indicadores de bem-estar do ecossistema, essenciais para a polinização e portanto, para a sobrevivência das espécies. O urbano monotemático de concreto e o rural cada vez mais tomado pelo monocultivo ameaçam não só a sobrevivência das abelhas, mas a nossa própria existência.

Fomos filmar o trabalho no apiário, que fica numa fazenda com cerrado nativo, cheio de formigões, florzinhas de todas as cores e as abelhas. É uma ilha de biodiversidade, cores e sons, cercada por fazendas de soja, de solo ressequido, tomada pelo som opressivo do vento no meio do nada. No centro da soja, um pequizeiro queimado, espécie nativa que não pode ser derrubada.

Vendo a paixão do apicultor pelo trabalho, a quantidade de conhecimento acumulado sobre as abelhas e a certeza de que se trata de um trabalho de cooperação entre espécies, lembrei do que li no livro fabuloso da antropóloga Anna Tsing, Viver nas ruínas, que fala sobre a relação entre humanos e não-humanos [no caso delas, os cogumelos matsutake], em paisagens pertubadas pelo capitalismo e pela monocultura do agronegócio.

Na ciência da plantation, como diz Tsing, o amor não flui entre o especialista e o objeto, que são separados pela vontade de poder. “Nas plantations do agronegócio, nós coagimos as plantas a crescerem sem a ajuda de outros seres… enfraquecendo-as como galinhas enjauladas e sem bico. Nós mutilamos e simplificamos as plantas cultivadas até que elas não mais saibam como participar em mundos de múltiplas espécies“.

Longe de ser um tratado sobre conservação que ignora a presença humana, o trabalho de Tsing trata da importância da relação multiespécie, em que a perturbação humana não se limita à mutilação do agronegócio, mas é capaz de construir paisagens biodiversas importantes. Para mim, isso tem tudo a ver com o trabalho com as abelhas. Em um mundo em colapso provocado pela ação humana que reduz a natureza e todas as espécies a objetos sem agência, o trabalho entre humanos e não-humanos é a saída para um futuro distópico.

Bee or not to be. Ou contribuímos para a existência das abelhas ou não seremos nada.

***

Em fevereiro, terminei de ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva.

Ainda em 2024, fui assistir ao filme no Cine Brasília, depois de pegar uma fila quilométrica para entrar. Cinema de rua cheio para ver filme nacional é demais. Mas depois da sessão, bateu aquele sentimento de que a ditadura militar é um fantasma nos nossos dias. Fora as recentes tentativas de golpe, temos lacunas na história, pessoas desaparecidas, uma descabida anistia aos militares…

Lendo o livro, que é excelente, eu tive essa sensação de horror e desgosto novamente. A violência desmedida com Rubens Paiva, o desaparecimento do seu corpo, saber que isso aconteceu com centenas de pessoas no Brasil, praticamente ontem; e ainda assim, nós não conseguimos resolver esse capítulo da nossa história. É como se tivéssemos um esquecimento seletivo.

Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, lutou para que essa história não fosse esquecida. Até a publicação do livro e, principalmente, até o lançamento do filme, ela ainda não tinha tido o reconhecimento que merecia. Aliás, o livro é sobre ela – e o filme também. Sobre como ela não só foi atrás da justiça para o marido e a família, mas como enxergou isso como algo maior, muito além da história pessoal.

Assim como minha avó, Eunice Paiva teve alzheimer. Assim como minha avó, também viveu grandes sofrimentos e depois perdeu a memória para a doença. Ainda estou aqui não é sobre o pai do Marcelo, mas sobre como o ser humano lida com a dor e com a memória e o que faz com isso.

Parte da luta hoje ainda é pela memória. Pela consciência de que não podemos esquecer. Que devemos lembrar aqueles que foram mortos, desaparecidos, perseguidos, torturados… que foram mulheres, crianças, homens cujas histórias ainda não foram contadas, por medo ou por injustiça. Indígenas, camponeses… para cada grupo marginalizado é adicionada uma camada a mais de violência e esquecimento nos horrores do regime militar.

Ainda estou aqui é um título que reflete a presença de um pai que desapareceu na ditadura, seguindo vivo na história e na luta da própria família, mas também é uma frase que Eunice Paiva costumava dizer quando a tratavam no passado: quem teve contato com pessoas com alzheimer sabe que nosso sentimento é de estar com alguém ausente, que não existe mais. Marcelo afirma que, nessas horas, a mãe costumava dizer: ainda estou aqui.

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O livro que citei, da Anna Lowenhaupt Tsing, Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno.

As fotos são do João Starghelin: Dia de campo – Apicultura https://www.flickr.com/photos/meunomenaoejohn/albums/72177720323931644/with/54334693722/

Como citar o texto: Duarte, Alexandra. 2025. “Bee or not to be”, Publicado em cafepraviajar.com, url: http://www.cafepraviajar.com/bee-or-not-to-be-drops-de-fevereiro/. Acesso em [dd/mm/aaaa].

Les temps sont durs pour les rêveurs

Contra todos que disseram que janeiro teve 54 dias, o meu durou duas semanas. Minha tese é que o tempo passa diferente para quem faz pós-graduação.

Aliás, o tempo, essa coisa que me tortura. Tenho na minha mesa um quadro com uma menina solta no universo, carregando um relógio no lugar da cabeça e cercada de relógios, em vez de planetas. Ele fica ao lado do meu computador, de frente para mim, quando me sento todos os dias para o meu trabalho infinito, como uma espécie de lembrança de como me sinto, mas também do que quero evitar.

Não gosto que minha vida e rotina sejam sempre pressionadas pelos prazos.

No último dia de janeiro, fui dormir pensando que há anos não sei o que é ter férias e descanso de verdade, acordar sem preocupação, sair para passear sem a tensão do dia seguinte, ter algumas horas de prazer sem culpa pelo trabalho a fazer. Às vezes, até sonho com uma vida comum, em que tenho hora para entrar e sair do trabalho e, quando eu saio, ele não vem comigo para casa.

Sonho em estar em casa sem nada para pensar. Sonho em não pensar mais nada. Posso fazer um exercício físico, cozinhar, conversar, assistir TV, ler um livro e dormir. Sem pressa, sem prazos, sem preocupações. Mas eu escolhi, ou fui destinada, a fazer coisas que não tem bordas delimitadas de tempo e espaço, elas se imbricam nas minhas horas, na minha cama, nos meus feriados, nos espaços de descanso, no meu lazer, nas minhas “férias”.

De vez em quando, percebo que mal paro para olhar pela janela, para a bonita paisagem que vejo do meu quarto. Quando olho, tudo parece tão distante, como se as grades da janela fossem um bloqueio não da esquadria, mas da minha vida.

Trabalho às vezes é a coisa mais desumanizante do mundo e eu odeio essa pressa que me faz evitar o agora porque amanhã eu tenho que

Quando chega o final de semana, sonho em ficar em casa e descansar, mas também trabalhar com calma, sem a correria de segunda-a-sexta. Mas final de semana chega e tem aniversário, tem visita de alguém que está na cidade, tem convites e atividades imperdíveis e então me vejo numa mistura de sentimentos entre “toda vez que penso que vou desacelerar no sábado e domingo aparece alguma coisa” e “que vida é essa que tô vivendo que não consigo socializar com qualidade e sem pressa?”.

Les temps sont durs pour les rêveurs, como diz alguém no filme O fabuloso destino de Amélie Poulain. São tempos duros para uma geração de pessoas sonhadoras, que aprendeu a cultivar prazeres peculiares, a desejar mais do que o ordinário da vida, mas que não encontra sentido em ser esmagada pelo trabalho, devorada pelo tempo, pela vaidade, pelo dinheiro.

Mas olha, não estou escrevendo isso apenas como um desabafo típico da TPM, do começo de ano, do final de semestre atrasado pelo greve. Estou escrevendo porque quero lembrar que é preciso dar um jeito, meu amigo [como diria Erasmo Carlos].

É preciso dar um jeito nesse sentimento, aprender alguma coisa com isso. Alguma coisa tem que mudar. Não posso me deixar ser devorada pelo tempo [meu quadro me lembra todos os dias que não posso ter um relógio no lugar da cabeça]. Já aprendi a não ser devorada e paralisada pela preocupação, quando consegui concluir e defender minha dissertação correndo contra o tempo. Agora tenho que aprender a não deixar de viver o sábado porque terça tem aula e daqui a três anos tem tese.

Tenho notado que ter alguns hábitos me ajuda a ter menos ansiedade e viver um dia de cada vez:

  • fazer exercício físico todos os dias [faço em casa mesmo, 15 ou 30 minutos com o aplicativo Queima Diária, ou caminhadas de cerca de 7km]
  • sempre ler boa literatura ou livros não acadêmicos [nem que sejam só 10 páginas antes de dormir]
  • ter tradições familiares para os finais de semana [assistir filme juntos, jogar jogos de tabuleiro, fazer um passeio ao ar livre…]
  • sempre assistir alguma série meio bobinha, daquelas que fazem a gente sentir que a a vida presta, sim!

Falando nisso, em janeiro eu:

  • li Mulherzinhas, de Louisa May Alcott [e comecei a ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva, mas esse vai ficar para os drops de fevereiro]. Mulherzinhas é o tipo de livro que eu preciso ler de vez em quando, pela escrita singela, porém inteligente, e pela aura do mundo antigo, que sempre me anima. Vou tentar publicar uma resenha dele depois.
  • eu e Aimée lemos Diário de Pilar na África, livro da série que amamos, da escritora Flávia Lins e Silva. Todos os livros são ótimos e o da África se tornou o preferido da Aimée. Mas não é uma leitura fácil, já que fala sobre escravidão – Aimée ficou bem impressionada em alguns momentos.
  • de séries, tenho assistido The Office, uma comédia que me mata de rir e de constrangimento, mas também dá aquele “conforto” no coração.
  • esse mês jogamos Scrabble e Cortex. Scrabble é um dos meus preferidos, porque eu amo jogos de palavras. Cortex eu namorei por anos e finalmente me dei de presente no Natal. É rápido, dinâmico, tem que colocar o cérebro pra jogo, é muito divertido.

Falando em colocar o cérebro pra jogo, a memória é algo que gosto de cultivar e é uma das razões pelas quais escrevo, então vou deixar uma memória do final do ano passado, que só não foi melhor porque eu não tive férias de verdade, só um breve recesso – por causa da greve, o semestre começou em novembro e tivemos apenas um recesso das festas de fim de ano. Eu tentei descansar um pouco, mas tinha trabalho para entregar, seminários para apresentar no retorno das aulas e nisso, o tempo passou voando.

De qualquer forma, foi um Natal e Réveillon tão agradável… Meu irmão veio com minha cunhada e meus sobrinhos. Muita criança fazendo bagunça, Aimée dia e noite brincando e brigando com os primos [tudo na mais perfeita ordem] e um sentimento gostoso de estar em casa e em família. As crianças capotaram na véspera de Natal e nem pediram para abrir os presentes que estavam debaixo da árvore. Na manhã seguinte, acordaram todas bem cedo e se reuniram para abri-los. Tomamos café juntos [panetone, rabanada e biscoitos de gengibre decorados] no silêncio natalino de Brasília.

No réveillon, cozinhamos comida árabe e uma torta de limão deliciosa. Jantamos em casa, ouvindo música suave e conversando. Perto de meia-noite, fomos ver a queima de fogos da Esplanada e voltamos para casa na tranquilidade e calmaria que tenho desejado tanto para esse ano.

Drops de junho/julho: buracos no tempo

dark serie

Há um momento em meio ao caos em que a gente não consegue mais seguir o fluxo do tempo. Os dias nos engolem como um buraco negro, implacável, e quando vemos, já se passou um mês, lá se foram dois meses…

Em tempos de isolamento social a coisa piora. Nem sempre temos razão para saber o dia da semana; que importa se hoje é terça ou quinta? E, surpreendentemente, o tempo que deveria passar lento, pois estamos presas em casa, está voando.

Não sei o que dizer desses dias. Às vezes sinto que naturalizei perfeitamente o ficar em casa, afinal, sempre gostei. Mas também sempre gostei de sair e de encontrar algumas pessoas e também sinto falta disso. Ficar em casa, particularmente, não é algo que me faça surtar, no entanto, o pesar pela situação pandêmica, os absurdos diários vindos da presidência da república, a reclusão necessária que parece não mais ter fim, dada a incompetência generalizada e completa falta de responsabilidade, sensibilidade e empatia do governo e de boa parte da população, deixam a gente ficou confusa, a vida virou uma bagunça.

Nos últimos dois meses eu não escrevi no blog, apesar de ter um compromisso pessoal de escrever pelo menos uma vez por mês. Também não li os blogs que sigo e a bem da verdade, praticamente não liguei o meu computador. Fiquei lendo livros e assistindo série e cuidando da casa e da Aimée. E o tempo voou! Quando eu vi, já era agosto e me bateu um desespero desse tempo passando tão rápido, dessa vida que escorre e a gente quase não vê.

Livros

Emma – Jane Austen

Emma era o último livro de Jane Austen, uma das minhas escritoras favoritas, que eu ainda não tinha lido. Na verdade, eu tentei começar algumas vezes, mas a leitura sempre travava e eu abandonava – algo incomum para a escrita de Jane Austen, que eu acho uma delícia.

Dessa vez eu insisti e consegui engatar na história, e embora Orgulho e Preconceito siga sendo minha obra favorita, Emma também tem os méritos que me fazem gostar tanto dessa escritora.

As protagonistas de Jane Austen têm algumas características em comum: umas são mais perspicazes, outras mais ingênuas, mas todas são muito inteligentes e de bom caráter. Um fato interessante é que elas costumam ser pobres – não paupérrimas a ponto de não terem acesso a uma boa educação, condição de extrema relevância nas mulheres para Jane Austen, mas também não são nada aristocráticas e costumam sofrer os revezes de sua origem social.

Emma, entretanto, é inteligente, mas muito mimada, um tanto maledicente e tola, além de muito rica. Não que ela não tenha um pouco da sensatez e do bom caráter presente nas personagens de Jane Austen, mas é justamente sua origem social e os preconceitos que vêm juntos que dão o tom da história, mais uma que, passados séculos desde que foi escrita, segue sendo tão atual.

Todos os nossos ontens – Natalia Ginzburg

Todos os nossos ontens é uma obra da escritora italiana Natalia Ginzburg. Foi publicada logo após o fim da 2ª Guerra Mundial e do fascismo na Itália e não por acaso: a autora foi membro da resistência antifascista junto com o pai e o marido.

Essa é uma história bem italiana, que mistura o cômico da vida comum com o trágico dos conflitos que pulsaram na Europa em meados do século XX. O livro é a saga de uma família que vai se desintegrando com a ascensão do fascismo e com a guerra, mas que também se reorganiza, buscando nas memórias do passado meios de viver o presente difícil e de reencontrar sua dignidade humana.

Filmes e Séries

Dark – Todas as temporadas [Netflix]

O que a gente realmente fez em junho e julho: assistiu as três temporadas da série alemã Dark, da Netflix.

Não é à toa que Dark causou tanto furor. Fazia tempo que uma série não chamava tanto minha atenção pela originalidade e qualidade do roteiro.

A história se passa numa pequena cidade da Alemanha e tudo começa com o sumiço de um garoto. A série envolve viagens no tempo e teorias da física como os buracos de minhoca, os “multiversos” e a teoria do gato de Schrodinger, além de uma iconografia que faz referência ao ocultismo e às sociedades secretas, com elementos também de religiosidade cristã.

Para quem gosta desses temas e de muito mistério, a história é um prato cheio para especulações sem fim – incluindo as que surgem e não são tão bem resolvidas mesmo com o fim da série.

Aleatoriedades

As origens: de Stonehenge ao mal do brasileiro

E por falar em mistério, outro dia eu assistia ao programa Stonehenge, segredos revelados, que passa no canal NatGeo.

Assim como milhares de pessoas, eu também sou apaixonada pela história dos henges e por arqueologia e o programa acompanha as escavações e especulações a respeito dessas estruturas neolíticas impressionantes.

Obviamente, uma das principais questões de Stonehenge é a origem das pedras, afinal, trata-se de uma estrutura circular de pedras e saber de onde vieram essas pedras é elementar.

Coincidentemente, uma semana após assistir esse programa saiu a notícia de que a origem das pedras foi descoberta. Fantástico! Mas não para o brasileiro médio que comenta nos portais de notícia. Parece que aquilo que se entende por “origem” de um monumento arqueológico deveria se aproximar muito mais de uma ficção do que de história, propriamente.

Nos comentários das reportagens os brasileiros estavam alucinados porque tudo aquilo não passava de um clickbait (publicação feita apenas para gerar visualizações), afinal, não se descobriu a origem das pedras de Stonehenge e sim, bem… apenas a origem das pedras de Stonehenge.

Aparentemente, eles queriam saber uma origem mágica, ocultista, de ficção, algo surpreendente, e não a origem concreta, ou seja, a simples localização.

Parece inconcebível que a descoberta do local de onde seres humanos de 2.500 a.C tiraram as pedras para fazer aquele impressionante henge seja algo importante. Quer dizer, pessoas da era neolítica percorreram longas distâncias carregando pedras pesadíssimas, mas saber de onde elas vieram, exatamente, não é tão interessante quanto conspirar sobre os motivos – mágicos, ocultos, mirabolantes – que levaram essas pessoas a construírem o monumento. Não duvido nada que eles esperassem algo sobre aliens e pedras vindas de outro planeta.

Pode até ser viagem minha, mas para mim isso mostra algo que eu sempre desconfiei, sobre a mentalidade excitável, impressionável e pouquíssimo científica do brasileiro médio, com tendências ao conspiracionismo e que vê coisa oculta e misteriosa em tudo.

Nada me tira da cabeça que, ao menos em parte, a eleição de um governo tão ruim como o de agora tem a ver com isso, com essa tendência não a acreditar simplesmente em tudo que vê (ou que recebe pelo zap), mas a acreditar especialmente num tipo específico de coisa, que é essa coisa oculta, mágica, revelada. Algo bastante explorado nas fake news mirabolantes inventadas pelo gabinete do ódio – invente uma fake news razoável e talvez eles não acreditem.

Drops de maio: teses

O Drops é um resumo do meu mês baseado em filmes, livros, séries, qualquer entretenimento que eu consuma ou qualquer outra coisa aleatória que traga algum entusiasmo pra minha vida.

Eu gosto dos Drops porque é como fazer um inventário dos meus dias, mas também por ser um exercício de análise e uma forma de trabalhar minha memória, uma vez que sempre que eu escrevo sobre coisas que eu li, assisti ou que tiveram minha atenção de alguma forma, eu reviso, analiso, reflito e reorganizo ideias. Por isso, mesmo que eu demore a publicar esse texto, não abro mão de escrevê-lo.

Em maio eu não li nenhum livro de ficção e os filmes que assisti continuam seguindo a linha bandidagem, criminalidade e psicopatia do mês anterior. Não sei porque, mas ultimamente sempre quero assistir filmes de ação e suspense. Ah, e eu finalmente assisti Bacurau.

Livros

A formação social da mente [L. S. Vigotski]

Vigotski é um teórico russo muito importante, tanto para a educação quanto para a psicologia. Pode-se dizer que ele foi um dos que inaugurou a neurociência no início do século XX, mesmo sem todos os recursos tecnológicos que se tem hoje. Tanto isso é verdade que muitos neurocientistas tem o cuidado de explicar que a neurociência nas áreas dos estudos sociais e humanos, como a educação e a psicologia, não traz nada de realmente novo, mas contribui para corroborar, com evidências científicas, teorias já bastante antigas.

A grande contribuição dessa obra de Vigotski foi demonstrar como o desenvolvimento do pensamento e da linguagem humana só é possível por ser social. E a grande sacada de Vigotski é que ele conseguiu percorrer o caminho que o aprendizado faz no cérebro graças ao método materialista histórico-dialético. Parece chocante, para muita gente, que o estudo sobre desenvolvimento cognitivo, a priori tão fisiológico, neurológico, se correlacione com a perspectiva marxista, que muitos reduzem à doutrinação esquerdista (risos). Mas se pensarmos bem, lembramos que Engels (o parceiro de Karl Marx) já tinha concebido a ideia de que o trabalho humano e o uso de instrumentos são meios pelos quais o ser humano transforma a natureza, e ao fazê-lo, transforma a si mesmo. Isso é a plasticidade neuronal de que a neurociência fala e que Vigostski antecipou.

Para qualquer pessoa que queira compreender o desenvolvimento humano, essa obra é instigante, muito embora ela possa exigir uma certa iniciação científica, pela profundidade teórica. Ela costuma ser particularmente interessante para quem trabalha com crianças, por conta da descrição dos experimentos e a teorização a respeito do papel do brinquedo, do desenvolvimento do pensamento e da linguagem, incluindo o desenho, a escrita e a alfabetização. No entanto, é importante lembrar que esse não é um livro sobre desenvolvimento infantil, propriamente, mas sim uma teorização sobre a formação social da mente humana, o que, evidentemente, inclui a infância.

Filmes

Calibre [Matt Palmer]

Tudo começa quando dois amigos resolvem sair para caçar em um melancólico vilarejo escocês, fora da temporada de caça – ou seja, o lugar está vazio. Sem querer, eles se envolvem em uma tragédia e como são os únicos forasteiros, sabem que logo serão tratados como principais suspeitos de um crime. Todo o drama, então, gira em torno do que eles precisam fazer para se safar, e a tensão gerada é no estilo Crime e Castigo de Dostoiévski: o sentimento de culpa, a paranoia de estar sendo vigiado e de que todos sabem o que você fez.

Calibre é um filme de suspense, porém morno. Tem o mérito de conseguir criar um ambiente tão frio e de um sombrio tão intenso que a gente começa a ficar triste como o vilarejo em que a história se passa parece ser. Não me empolgou, mas também não chega a ser um filme ruim.

Tese sobre um homicídio [Hernán Golfrid]

Esse filme argentino, estrelado por Ricardo Darín, é um suspense baseado no livro homônimo do autor Diego Paszkowski . A história começa quando um crime hediondo acontece na universidade onde o protagonista, um professor especialista em direito criminal, dava aulas.

Um de seus alunos, que estava em sala quando o crime ocorreu, se torna suspeito para o professor, que fica obcecado pelo contexto do homicídio – uma jovem garçonete do café próximo à universidade é estuprada e morta de maneira violenta. Junto com o corpo, o assassino deixa uma placa com os dizeres “morte a mulheres como ela”.

O jogo entre professor e aluno – entre a desconfiança que se torna paranoia, do mestre, e o ar de desafio, de pequenas pistas e sugestões, do aprendiz – dá a tônica do filme.

A história tem um apelo hollywoodiano, embora seja mais sutil e sofisticada que os clássicos “tela quente”. É um filme bom de assistir, embora também não seja um super filme.

A casa que Jack construiu [Lars Von Trier]

Esse é um filme de Lars Von Trier, e os filmes desse diretor sempre me dão a sensação de assistir a uma exposição de arte em movimento, como se as cenas fossem quadros fugidios que se organizassem para formar um roteiro de cinema. O que eu quero dizer é que o impacto estético, visual, do filme, costuma ser tão ou mais intenso, para mim, do que o roteiro propriamente dito, de texto, da história. Não que os diálogos ou a história não sejam interessantes, mas o impacto estético é algo que não se pode ignorar.

O filme conta a história de Jack, um engenheiro civil que queria mesmo era ser arquiteto. Ele sofre de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) e está tentando construir, com as próprias mãos, a casa perfeita. Jack é noiado, frustrado, obcecado por limpeza e, de fato, tem uma mente psicopata.

A história é narrada por ele em um diálogo – com ares filosóficos, mas carregado de deboche e ironia – com uma voz que ele chama de Virgílio (alusão ao poeta romano). Jack conta como orquestrou alguns de seus principais crimes, defendendo que eles são verdadeiras obras de arte, pois são tanto expressão de suas angústias e questões existenciais, quanto uma busca por criar algo maior do que ele mesmo – a transcendência encontrada na criação artística.

Bacurau [Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles]

É difícil falar sobre Bacurau, porque, nesse momento, me parece que falar sobre Bacurau é muito mais do que falar sobre um filme. Por bem ou por mal, por intenção ou não por parte dos diretores, a obra foi apropriada pelo contexto histórico.

Com isso, quase todas as críticas fazem referência ao momento que vivemos agora, como se a obra estivesse à mercê da realidade atual, mesmo sabendo que o filme começou a ser produzido muitos anos atrás. E o problema disso é que, me parece, tanto elogios quanto críticas negativas saem muito mais fervorosos do que deveriam ser.

Kleber Mendonça Filho é diretor de um dos meus filmes brasileiros favoritos [O som ao redor]. E Bacurau foi aquele alvoroço, festival de Cannes e tudo – embora isso não seja mais novidade para ele.

O filme tem três partes que se diferenciam bastante, em contexto, em narrativa, em estética, em qualidade. O primeiro é bastante realista. Poeira, caminhão, um bandido sendo procurado, uma conterrânea que foi embora chegando para um velório em Bacurau… mas aqui e ali algo meio surreal aparece: a droga que as pessoas tomam coletivamente [seria uma alusão ao “soma”, droga tomada pela população em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley?], a tecnologia contrastante com a pobreza local, uma casa muito pobre abarrotada de livros, uma caçamba da prefeitura despejando livros, ao invés de comida, na rua de terra…

A segunda parte sai do realismo brasileiro e entra na estética hollywoodiana, com atores estrangeiros e com aquela aura de cinema americano de ação. Mas o conteúdo é um deboche: ironiza o brasileiro do sul e sudeste, que se acha superior ao nordestino e ironiza o americano, que se acha superior a qualquer um e só considera violência aquilo que é praticado contra seu povo, enquanto ele mesmo pode se dar ao direito de matar por esporte.

A terceira parte, talvez a mais original, reúne os dois contextos anteriores num confronto. O estilo lembra um cangaço moderno, a população de Bacurau resiste, organizada, coesa, justiceira.

O filme tem seus méritos: a crítica social sempre presente, a atuação de Sônia Braga sempre impecável, algumas referências muito boas, como a crítica ao cinema hollywoodiano western, ao patético sniper americano… e a cena que apresenta a temática do museu de Bacurau, para mim uma das melhores sacadas do filme.

Porém, também tem problemas. Um deles é a dificuldade em entender os diálogos, não sei se pelo áudio ou pela dicção e sotaque dos atores. Além disso, pode ser que minha percepção mude com o tempo, mas a primeira impressão que ficou é que falta continuidade, tanto de roteiro quanto de fotografia, que tem muitos altos e baixos. A discrepância pode até ser proposital, mas a sensação que dá é uma história que vai travando e que só se desenrola e consegue fluir bem no final.

Um crítico de cinema que li [Luis Zanin], disse que o filme simboliza o que nos falta: a resistência de uma comunidade que tem seu território ocupado com violência e que não se reduz a ser caça. E nós nos sentimos assim hoje no Brasil. É verdade que nos sentimos assim, e talvez por essa identificação tanta gente amou o filme. Mas, para mim, a intenção da obra é outra coisa. O quê, eu ainda estou descobrindo e, como não quero ser injusta, vou deixar o texto completo para depois.

Drops de abril: o fundo do poço

colagem ilustração cinema

Às vezes, quando faço meus drops (esse espaço dedicado a falar sobre o entretenimento que consumi no mês), acontece de eu perceber que segui, inconscientemente, uma linha temática.

Em janeiro desse ano, tudo esteve relacionado ao universo familiar. Já abril me surpreendeu pelo conteúdo todo girar em torno mundo do crime, das prisões e, mais louco ainda, das histórias de bandidos baseadas em fatos reais.

Por que isso acontece? Será que a astrologia e o mapa do céu explicam? Será que o nosso inconsciente busca pelas mesmas coisas de maneira tão insistente? Não sei, mas segue meu relatório:

Livro: Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias [Flannery O’Connor]

Li num pulo essa maravilhosa obra da escritora norte-americana Flannery O’Connor. Trata-se de um livro de contos do gênero gótico do sul dos EUA, escrito em meados do século XX. Nele, as histórias sempre terminam tragicamente, e as personagens revelam seu lado mais hipócrita, mesquinho e sombrio.

A maioria dos contos toca na questão de classes e no problema do racismo e sempre envolve aspectos religiosos, sobretudo a oposição entre o fervor religioso e o afastamento desse universo.

A autora, de fato, formou-se em Ciências Sociais, mas o que me deixou mais chocada foi descobrir que ela própria afirmou não tratar de questões sociais na obra, e sim de redenção religiosa. Flannery O’Connor era muito católica e fez suas personagens encontrarem a redenção pela tragédia.

Série: La casa de papel – 4ª temporada [Netflix]

Quando assisti a 1ª temporada de La casa de papel, lembro de ter achado graça. Achei meio piegas, meio humorística demais, meio novelesca. E ela é assim mesmo. Acontece que, se você assiste até final, alguma coisa te pega e você não consegue deixar de assistir.

Eu acho que isso acontece porque as personagens são muito carismáticas e acaba que a narrativa não se reduz apenas a uma perseguição policial, embora tenha todos os elementos de ação que a gente gosta de ver. E, embora ela tenha uma narrativa acessível e mais comercial, isso não a torna necessariamente superficial. E mais do que isso, não a torna óbvia, porque de fato a gente espera para ver o que vai acontecer e se surpreende.

Filmes:

O poço [Galder Gaztelu-Urrutia]

Todos estavam falando sobre esse filme e lá fomos nós assistir. O poço é uma prisão vertical, com centenas de andares e apenas dois presos por andar. Até aí, nada de mais. Acontece que a comida é servida de cima e quanto mas embaixo você está, menos (ou nada) você come.

A alusão mais óbvia é à desigualdade social, em que os mais ricos comem ostensivamente e para os mais pobres sobram pratos vazios e a violência, que da busca pela sobrevivência.

Mas óbvio que o filme quer mais do que isso (pelo menos eu acho): conseguiremos superar essa desigualdade? Como? Há possibilidade do ser humano realmente ser solidário em uma situação calamitosa, de desigualdade, de conflito, de luta pela sobrevivência? Quem tá em cima vai querer perder seus privilégios? Se há possibilidade de tentar superar essa desigualdade, isso vai se dar pela força ou pela educação? Pelo filme, a conclusão é de que pelo diálogo educado não se chega muito longe, mas a violência tampouco leva a algum lugar. Essa ideia, essa discussão, é ótima, genial. O problema é a forma.

O filme explora excessivamente a crueldade, a crueza de revirar o estômago, e muito pouco as reflexões que provavelmente foram colocadas. Se a questão é sobre a solidariedade, se se deve fazer um diálogo com as pessoas, se elas podem ser convencidas pela palavra ou se o convencimento continuará sendo pela violência, isso foi explorado de maneira tão superficial que fica em aberto demais. No final, sobra apelação trágica, um elemento de redenção religiosa (?) quase aleatório, apesar das alusões ao céu e ao inferno, e fica faltando o que deveria ser mais interessante do filme: a superação do conflito.

Prenda-me se for capaz [Steven Spielberg]

O filme é 2002 e o título faz parecer que é um daqueles de perseguição policial, com muita bomba, tiro e explosão. Mas não. Trata-se da história real do ex-vigarista/fraudador Frank Abagnale Jr., que com apenas 18 anos conseguiu se tornar o maior ladrão de banco dos EUA. Hoje, ele atua como consultor de segurança e trabalha para o FBI. A história é realmente interessante e quem faz o papel do protagonista é Leonardo DiCaprio, excelentíssimo na atuação – inclusive, fico cada vez mais fã dele.

Do inferno [Albert Hughes e Allen Hughes]

Baseado nos quadrinhos de Alan Moore (mesmo autor de V de Vingança), conta a história do serial killer que atormentou Londres no final do século XIX: Jack, o estripador. A obra é uma releitura envolvendo alguns fatos sobre a atuação do assassino e elementos ficcionais, como a família real inglesa e a maçonaria. O protagonista é o inspetor do caso, papel interpretado por Johnny Depp. O filme é de 2001 e o clima Londres histórica suja e sombria, que me lembra vários filmes dos anos 2000, é bem legal.

O anjo [Luis Ortega]

Outro assassino em série, Carlitos, como era chamado, foi o maior serial killer da história da Argentina. Ganhou o apelido de Anjo porque tinha apenas 20 anos quando foi preso, e ostentava uma aparência feminina e angelical. Tinha origem familiar estável, sem qualquer situação de conflito ou precariedade que pudesse justificar a tendência violenta, o que torna o caso mais curioso. A atuação do elenco é ótima e o roteiro é realmente muito bom [foi exibido no Festival de Cannes].


E vocês, o que assistiram, leram ou descobriram de interessante? Fico feliz em receber sugestões. 🙂