Les temps sont durs pour les rêveurs

Contra todos que disseram que janeiro teve 54 dias, o meu durou duas semanas. Minha tese é que o tempo passa diferente para quem faz pós-graduação.

Aliás, o tempo, essa coisa que me tortura. Tenho na minha mesa um quadro com uma menina solta no universo, carregando um relógio no lugar da cabeça e cercada de relógios, em vez de planetas. Ele fica ao lado do meu computador, de frente para mim, quando me sento todos os dias para o meu trabalho infinito, como uma espécie de lembrança de como me sinto, mas também do que quero evitar.

Não gosto que minha vida e rotina sejam sempre pressionadas pelos prazos.

No último dia de janeiro, fui dormir pensando que há anos não sei o que é ter férias e descanso de verdade, acordar sem preocupação, sair para passear sem a tensão do dia seguinte, ter algumas horas de prazer sem culpa pelo trabalho a fazer. Às vezes, até sonho com uma vida comum, em que tenho hora para entrar e sair do trabalho e, quando eu saio, ele não vem comigo para casa.

Sonho em estar em casa sem nada para pensar. Sonho em não pensar mais nada. Posso fazer um exercício físico, cozinhar, conversar, assistir TV, ler um livro e dormir. Sem pressa, sem prazos, sem preocupações. Mas eu escolhi, ou fui destinada, a fazer coisas que não tem bordas delimitadas de tempo e espaço, elas se imbricam nas minhas horas, na minha cama, nos meus feriados, nos espaços de descanso, no meu lazer, nas minhas “férias”.

De vez em quando, percebo que mal paro para olhar pela janela, para a bonita paisagem que vejo do meu quarto. Quando olho, tudo parece tão distante, como se as grades da janela fossem um bloqueio não da esquadria, mas da minha vida.

Trabalho às vezes é a coisa mais desumanizante do mundo e eu odeio essa pressa que me faz evitar o agora porque amanhã eu tenho que

Quando chega o final de semana, sonho em ficar em casa e descansar, mas também trabalhar com calma, sem a correria de segunda-a-sexta. Mas final de semana chega e tem aniversário, tem visita de alguém que está na cidade, tem convites e atividades imperdíveis e então me vejo numa mistura de sentimentos entre “toda vez que penso que vou desacelerar no sábado e domingo aparece alguma coisa” e “que vida é essa que tô vivendo que não consigo socializar com qualidade e sem pressa?”.

Les temps sont durs pour les rêveurs, como diz alguém no filme O fabuloso destino de Amélie Poulain. São tempos duros para uma geração de pessoas sonhadoras, que aprendeu a cultivar prazeres peculiares, a desejar mais do que o ordinário da vida, mas que não encontra sentido em ser esmagada pelo trabalho, devorada pelo tempo, pela vaidade, pelo dinheiro.

Mas olha, não estou escrevendo isso apenas como um desabafo típico da TPM, do começo de ano, do final de semestre atrasado pelo greve. Estou escrevendo porque quero lembrar que é preciso dar um jeito, meu amigo [como diria Erasmo Carlos].

É preciso dar um jeito nesse sentimento, aprender alguma coisa com isso. Alguma coisa tem que mudar. Não posso me deixar ser devorada pelo tempo [meu quadro me lembra todos os dias que não posso ter um relógio no lugar da cabeça]. Já aprendi a não ser devorada e paralisada pela preocupação, quando consegui concluir e defender minha dissertação correndo contra o tempo. Agora tenho que aprender a não deixar de viver o sábado porque terça tem aula e daqui a três anos tem tese.

Tenho notado que ter alguns hábitos me ajuda a ter menos ansiedade e viver um dia de cada vez:

  • fazer exercício físico todos os dias [faço em casa mesmo, 15 ou 30 minutos com o aplicativo Queima Diária, ou caminhadas de cerca de 7km]
  • sempre ler boa literatura ou livros não acadêmicos [nem que sejam só 10 páginas antes de dormir]
  • ter tradições familiares para os finais de semana [assistir filme juntos, jogar jogos de tabuleiro, fazer um passeio ao ar livre…]
  • sempre assistir alguma série meio bobinha, daquelas que fazem a gente sentir que a a vida presta, sim!

Falando nisso, em janeiro eu:

  • li Mulherzinhas, de Louisa May Alcott [e comecei a ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva, mas esse vai ficar para os drops de fevereiro]. Mulherzinhas é o tipo de livro que eu preciso ler de vez em quando, pela escrita singela, porém inteligente, e pela aura do mundo antigo, que sempre me anima. Vou tentar publicar uma resenha dele depois.
  • eu e Aimée lemos Diário de Pilar na África, livro da série que amamos, da escritora Flávia Lins e Silva. Todos os livros são ótimos e o da África se tornou o preferido da Aimée. Mas não é uma leitura fácil, já que fala sobre escravidão – Aimée ficou bem impressionada em alguns momentos.
  • de séries, tenho assistido The Office, uma comédia que me mata de rir e de constrangimento, mas também dá aquele “conforto” no coração.
  • esse mês jogamos Scrabble e Cortex. Scrabble é um dos meus preferidos, porque eu amo jogos de palavras. Cortex eu namorei por anos e finalmente me dei de presente no Natal. É rápido, dinâmico, tem que colocar o cérebro pra jogo, é muito divertido.

Falando em colocar o cérebro pra jogo, a memória é algo que gosto de cultivar e é uma das razões pelas quais escrevo, então vou deixar uma memória do final do ano passado, que só não foi melhor porque eu não tive férias de verdade, só um breve recesso – por causa da greve, o semestre começou em novembro e tivemos apenas um recesso das festas de fim de ano. Eu tentei descansar um pouco, mas tinha trabalho para entregar, seminários para apresentar no retorno das aulas e nisso, o tempo passou voando.

De qualquer forma, foi um Natal e Réveillon tão agradável… Meu irmão veio com minha cunhada e meus sobrinhos. Muita criança fazendo bagunça, Aimée dia e noite brincando e brigando com os primos [tudo na mais perfeita ordem] e um sentimento gostoso de estar em casa e em família. As crianças capotaram na véspera de Natal e nem pediram para abrir os presentes que estavam debaixo da árvore. Na manhã seguinte, acordaram todas bem cedo e se reuniram para abri-los. Tomamos café juntos [panetone, rabanada e biscoitos de gengibre decorados] no silêncio natalino de Brasília.

No réveillon, cozinhamos comida árabe e uma torta de limão deliciosa. Jantamos em casa, ouvindo música suave e conversando. Perto de meia-noite, fomos ver a queima de fogos da Esplanada e voltamos para casa na tranquilidade e calmaria que tenho desejado tanto para esse ano.

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